Se você fosse uma bolha de sabão aonde estouraria?

Clara Dawn

Por cima do mar depois de absorver a maresia; nos lábios da pessoa amada; sobre o algodão-doce; no vazio do orbe; num campo de girassóis; naquela janela da casinha branca; nas mãos daquele alguém; na copa de uma sequoia; junto às nuvens em formato de bichinhos jocosos ou no quintal de casa? Diga-me, se você fosse uma bolha de sabão, aonde estouraria?

Pensei nessa singular imagem: uma pequena quantidade de ar contida em uma substância líquida que se funde com sais de sódio e potássio e que se espalha em ebulição… Tantas palavras para explicá-la quimicamente e ei-la aqui, na palma de minha mão, simples e bela, brilhante e frágil, clara e infantil.

Eu adoraria ser uma bolha de sabão e flutuar ao nascer do sol sobre um imenso tapete de capim com vários tons de verde e depois de receber flechadas solares, eu estouraria iridescente sobre a relva…Sim, uma existência breve e gloriosa.

Estou construindo bolhas de sabão agora. Enquanto escrevo, elas se formam diante de mim e eu inflo na expectativa de me fundir a elas e assim beijar muitas faces e, quem sabe, banhar o rostinho de uma criança só para vê-la gargalhar.

Não titubei em meus pensamentos ao equivaler a importância de tais coisas e concluí que para mim não há grandeza maior do que se dissipar sobre campos de girassóis. Flutuar sobre uma  árvore frondosa e adormecer em seus braços ou apenas desaparecer no horizonte.

Ou estaria a verdadeira grandeza nas coisas possíveis, mas não batalháveis  da existência, tais como tirar o poder de homens corruptíveis e dar ao povo as vicissitudes terrenas que lhes são de direito? Como são tolos os homens de concreto que só produzem concreto. Homens feitos de bolhas de sabão produzem a alegria em estar vivos. Porque pior que postular com uma minoria opressora dominante, é sublimá-la como se uma mudança radical e do bem cooperado – o boomm da bolha de sabão – não fosse possível.

Ah, se eu pudesse numa existência breve ser grande e dentro de minha grandiosidade ser cheia de leveza. Tão preenchida e ao mesmo tempo leve como uma bolha de sabão. Preenchida para transbordar e leve para receptar – preenchida, toda eu, de leveza – de tal modo que a minha vida fizesse o único sentido que uma vida pode fazer no mundo: compreender e lutar para que todos tenham os mesmos direitos à felicidade em termos gerais.

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Clara Dawn
Psicopedagoga e escritora. Como psicopedagoga é autora do projeto: "A drogadição na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio". Como escritora já publicou 7 livros. Dentre eles: O Cortador de Hóstias (Romance), Alétheia(Romance) e Sófia Búlgara e Tabuleiro da Morte (Crônicas de prosa poética). Clara Dawn também produtora de conteúdo da marca Raízes Jornalismo Cultural.

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