O trauma não é um evento isolado no tempo, mas uma ferida aberta que atravessa gerações, moldando a identidade de nações e o íntimo de cada indivíduo. Historicamente, a humanidade foi forjada sob o peso de guerras, colonizações e rupturas sociais que deixaram marcas profundas na psique coletiva.

Sob uma ótica existencialista contemporânea, vivemos em um mundo onde a angústia de ser e a busca por sentido chocam-se com estruturas de produtividade exaustivas e desumanizantes. No Brasil, essa realidade ganha contornos específicos: somos herdeiros de séculos de violência estrutural, cujas cicatrizes se manifestam na desigualdade, no silenciamento e em uma dor que, muitas vezes, nem sabemos nomear, mas que sentimos pulsar no cotidiano de nossas relações.

Segundo o psicólogo Leonardo Duart, (capa) em artigo publicado no portal do Centro de Educação Infantil (CEI) Campinas, vivemos em uma sociedade traumatizada que, por não curar suas feridas, acaba por traumatizar seus membros. A partir dessa premissa, podemos mergulhar na complexidade do sofrimento humano e nas possibilidades de regeneração.

Sociologia do trauma

Nascemos em um cenário que já estava montado muito antes de nossa chegada. As dores não resolvidas de nossos antepassados: seus medos, perdas e silêncios.. não desaparecem com o tempo; elas são transmitidas como um legado invisível. Quando uma cultura não oferece espaço para o luto e para a elaboração do sofrimento, a dor se transforma em um padrão de comportamento.

Embora Leonardo Duart foque o seu trabalho na “sociologia do trauma”  (como as estruturas sociais perpetuam a violência), ele dialoga com o conceito da “transgeracionalidade” como uma perspectiva de que o trauma pode passar da estrutura social para o íntimo do indivíduo e permanecer por gerações.

A conexão entre essas duas estruturas ocorre em três pontos fundamentais:

1. A Vítima que se torna Algoz:
Leonardo Duart menciona que o autor de uma violência foi, muitas vezes, uma vítima anterior. A transgeracionalidade expande essa visão: essa “vítima anterior” pode não ter sido a própria pessoa, mas seu pai, avó ou um antepassado. Quando um trauma não é elaborado, ele vira um “fantasma” familiar. A pessoa repete o comportamento violento ou negligente não por maldade, mas porque herdou um “mecanismo de sobrevivência”  que já não cabe mais no presente.

2. A Normalização do Sofrimento:
Duart argumenta que a sociedade ignora o trauma. No campo transgeracional, isso se chama “lealdade invisível”. Para pertencer a uma família ou a um grupo social, muitas vezes repetimos inconscientemente o sofrimento deles. Se a minha estrutura social (Brasil) e a minha família foram forjadas na base da resiliência forçada e do silenciamento, eu passo a considerar o meu próprio trauma como “normal”. O diálogo aqui é claro: a sociedade traumatiza (Duart) e a família preserva esse trauma como uma forma de identidade (Transgeracionalismo).

3. A Justiça Restaurativa como Cura do Fluxo: A proposta de Leonardo sobre a “Cultura Restaurativa”  se alinha perfeitamente com a ideia de interromper a transmissão de fardos.

Na visão transgeracional, a cura acontece quando damos um lugar ao que aconteceu, reconhecemos a dor dos que vieram antes, mas escolhemos não carregar mais o peso por eles. Quando Leonardo fala em “romper ciclos de violência”, ele está descrevendo o ato de “parar o dominó” que vem caindo através das décadas.

O professor Leonardo Duart nos entrega um “mapa do território social” (onde a violência nasce e se distribui), e transgeracionalidade nos dá a “lupa sobre a linhagem” (como essa violência viaja no tempo através do afeto e do sangue).

Juntos, eles formam um argumento poderoso: para mudar o futuro precisamos curar o passado que ainda vive em nós.

Muitas vezes, acreditamos estar agindo por vontade própria, quando estamos apenas reproduzindo respostas automáticas a traumas que não nos pertencem originalmente, mas que habitam nossa biologia e nossa história familiar.

Faz sentido para você essa integração entre o peso da sociedade e o peso da ancestralidade?

A linguagem do corpo e o silêncio da alma

Quando as palavras falham ou quando o ambiente não é seguro para a expressão do sentir, o corpo assume o papel de porta-voz. O sofrimento emocional que é reprimido ou negligenciado não se dissipa; ele se converte em tensão, em exaustão crônica e em manifestações físicas que tentam sinalizar que algo está em desequilíbrio.

A sociedade contemporânea nos ensina a ignorar esses sinais e a tratar o corpo como uma máquina, mas ele guarda a memória de cada negligência e de cada violência sofrida, clamando por atenção e cuidado.

A percepção do mundo através da lente do medo

O trauma altera a maneira como percebemos a realidade. Para quem cresceu em ambientes de instabilidade ou violência, o mundo deixa de ser um lugar de possibilidades para se tornar um campo de ameaças constantes. Essa hipervigilância molda a nossa forma de estar no mundo, dificultando a criação de vínculos de confiança e a abertura para o novo. Vivemos em um estado de defesa que, embora tenha servido para a sobrevivência em momentos críticos, torna-se uma prisão que nos impede de vivenciar a plenitude da existência e a liberdade de ser quem somos.

O ciclo da repetição e a busca pela justiça restaurativa

A tendência humana de repetir o que não foi compreendido é um dos maiores desafios sociais. Alguém que foi ferido, sem o devido suporte para transformar essa experiência, corre o risco de se tornar aquele que fere, acreditando que a punição ou a retaliação são as únicas linguagens possíveis.

Romper esse ciclo exige a coragem de olhar para o agressor não apenas como um culpado, mas como alguém que, possivelmente, também carrega uma história de fragmentação. O foco deve migrar do castigo vazio para a reparação das relações e para a compreensão das causas profundas que sustentam a violência.

A construção de novos sentidos para o viver

Apesar da profundidade das marcas, o ser humano possui uma capacidade intrínseca de buscar a cura. Essa jornada começa pelo reconhecimento de que nossa dor é legítima e de que não precisamos carregá-la sozinhos. Ao transformar o sofrimento em consciência, passamos a ter a chance de escolher caminhos diferentes daqueles que nos foram impostos pela história.

A cura não é o esquecimento do que passou, mas a integração dessas experiências de forma que elas deixem de ditar o nosso futuro, permitindo que a vida flua com mais leveza e autenticidade.

O Despertar para uma Nova Herança

A jornada de cura, tanto individual quanto coletiva, não é um destino onde chegamos e tudo se torna perfeito, mas um processo contínuo de ganhar consciência.

Ao compreendermos que nossas dores físicas e angústias existenciais são, muitas vezes, o grito de uma criança interior ou de antepassados que não puderam se expressar, deixamos de ser vítimas do destino para nos tornarmos autores da nossa própria história.

Romper com o trauma é o maior ato de rebeldia e amor que podemos exercer; é decidir que a dor termina em nós, para que as gerações futuras possam herdar liberdade, e não fardos.

Em suma: Precisamos encarar o fato de que somos uma sociedade traumatizada que traumatiza. E se a base de qualquer estrutura social que pretenda ser minimamente civilizada é a não normalização da barbárie, então nossa primeira urgência é retirar o véu de normalidade que lançamos sobre nossas feridas coletivas.

Se você se identificou com essas palavras e sentiu que o peso tem sido difícil de carregar, saiba que não precisa caminhar sozinho. A cura floresce no encontro e no acolhimento.

Onde buscar apoio e acolhimento:

Se você está passando por um momento difícil ou conhece alguém que precise de ajuda, existem redes de apoio gratuitas e profissionais preparadas para te ouvir:

  •  CVV (Centro de Valorização da Vida): Atendimento gratuito, sigiloso e 24 horas para apoio emocional e prevenção do suicídio. Ligue 188 ou acesse cvv.org.br para chat e e-mail.
  • CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): Unidades do SUS que oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito em todo o Brasil. Procure o mais próximo da sua residência.
  • Clínicas-Escola de Psicologia: Muitas universidades oferecem atendimento psicoterapêutico gratuito ou a preços sociais realizado por estudantes sob supervisão.
  • Mapa da Saúde Mental: Um portal que ajuda a localizar locais de atendimento voluntário e gratuito em diversas regiões. Acesse: mapasaudemental.com.br





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