Uma pessoa não prospera com um cérebro em ameaça constante. Ela apenas sobrevive.

Se olharmos de perto, construir uma vida próspera é um quebra-cabeça complexo, pois existem variáveis externas e estruturais que determinam o nosso ponto de partida: desde a condição socioeconômica da família, o acesso a uma educação de qualidade e oportunidades de emprego, até a presença de uma rede de apoio e fatores de saúde física, mental e social. Seria injusto e reducionista ignorar que essas circunstâncias facilitam ou dificultam a nossa caminhada, interferindo diretamente no alcance dos nossos sonhos, do que desejamos nos tornar.

Dito isto, o objetivo desta reflexão é fazer um recorte cirúrgico sobre uma barreira invisível que sabota o próprio processo de construção da vida: o trauma decorrente do abuso constante. A verdade nua e crua, comprovada pela neurociência, é que a pessoa pode ter um cenário externo promissor, ter boas condições financeiras ou estar cercada de oportunidades na vida, porém um fator a mais entra em jogo: se o seu cérebro estiver operando em um estado crônico de alerta devido ao abuso doméstico ou conjugal, sua circuitaria do progresso não vai a lugar algum ou, se for, não vai muito longe. Ou seja, você não conseguirá sustentar o foco nos estudos, nem terá energia para trabalhar, tampouco a estabilidade para um dia colher os frutos das oportunidades que se apresentam em sua caminhada.

A neurobiologia do trauma

A neurobiologia do trauma explica que abusos reiterados drenam a capacidade de transformar o seu potencial criativo em realidade, porque, para se atingir qualquer objetivo, o corpo exige uma estabilidade (interna e externa) que um sistema nervoso em estado de ameaça e hipervigilância não consegue produzir nem sustentar.

Deste modo, é desafiador prosperar em um ambiente hostil ou de ameaça constante porque o estresse crônico mantém o cérebro inundado de cortisol e adrenalina, ativando continuamente a amígdala, que é onde o medo é processado. Esse estado de alerta permanente desativa as áreas do córtex pré-frontal que são responsáveis pela tomada de decisões, criatividade e planejamento de futuro. Ninguém progride em um relacionamento abusivo porque seu cérebro está gastando toda a energia vital apenas para mitigar danos e prever o próximo ataque. As sequelas não são apenas emocionais, mas também cognitivas. Em outras palavras, a prosperidade profissional, financeira e pessoal só se torna possível quando o sistema nervoso finalmente recupera o senso de segurança e bem-estar para voltar a desenvolver suas potencialidades, pois em estado de desamparo e/ou hipervigilância é quase inviável. O termo “base segura” de Ainsworth nunca fez tanto sentido, visto que o abuso crônico gera uma redoma de confinamento psicológico que drena qualquer autonomia.

Autopreservação e hipervigilância

Como preconizava Bowlby, a dinâmica humana oscila entre o apego e a exploração; sendo assim, se a relação falha em ser um porto seguro, o cérebro congela a nossa capacidade de investigar e conquistar o mundo. Trazer essa exploração para o contexto adulto significa falar de progresso pessoal, da liberdade de traçar metas, honrar sua essência e construir objetivos. Quando o ambiente da casa em que você vive é abusivo, ocorre o que a Teoria Polivagal chama de resposta de ameaça. Seu cérebro ativa a hipervigilância crônica, focando todos os recursos biológicos na autopreservação. Toda a sua energia biológica é sequestrada para fazer você pisar em ovos, calcular cada passo, cada palavra e tentar prever o próximo ataque, que pode ser de um familiar, um(a) parceiro(a) afetivo ou de quem esteja minando a sua circuitaria nervosa. O preço desse modo de sobrevivência é o bloqueio do seu progresso, pois uma mente que luta constantemente para não ser destruída não encontra espaço para florescer.

O vazio existencial e fragmentação do self

Para entender a gravidade disso, imagine alguém tentando viver no meio de uma guerra civil. Qual é o movimento dessa pessoa? Lutar, fugir ou congelar, e o único pensamento dela é sobreviver. Você já conheceu alguém que conseguiu estudar ou prosperar enquanto se desviava de bombas ou se escondia de inimigos? É biologicamente impossível. Em um relacionamento tóxico a dinâmica é a mesma: no máximo, você sobrevive. E, quando o conflito cessa, o corpo ainda carrega as marcas invisíveis do trauma na sua estrutura nervosa. Aliás, acredito que o estado de guerra tem uma questão que joga a favor, e não estou defendendo nenhuma guerra, mas o fato é que as pessoas se sensibilizam e se ajudam, elas unem forças para sobreviver. Já em um lar hostil, isso dificilmente acontece.

Pois muito bem, continuando o raciocínio: se você é constantemente invalidado(a), ameaçado(a) e se suas necessidades emocionais, afetivas e existenciais básicas são ignoradas, o que sobra? O estado de não existência. A psicotraumatologia chama isso de vazio existencial e fragmentação do self. Você experimenta uma pobreza interna devastadora e a sensação constante de “estar no frio”, excluído(a) do próprio direito de se sentir humano, como se estivesse “sem teto” e sem pertencimento. A dor da rejeição e da exclusão social ativa as mesmas vias cerebrais da dor física no córtex cingulado anterior, e a sensação de não pertencer é uma dor que consome mais energia do que qualquer buraco negro. Se a cada dia você precisa lutar para existir, mendigar validação e sobreviver ao caos sistêmico do abuso, você se torna um sobrevivente no cotidiano, e não alguém que vive plenamente.

Quero ser muito honesta com você: resgatar o sentido da vida no meio do abuso é uma tarefa hercúlea e nem todo mundo consegue de imediato e está tudo bem, pois existem muitas variáveis nessa dor. Mas o segredo para virar o jogo está em entender que a única fortaleza que o agressor não pode invadir é o sentido que você dá à sua existência.

É aqui que a história de Viktor Frankl abraça a sua dor. Ele comprovou na pele que o ser humano é capaz de suportar quase qualquer “como” se tiver um “porquê”. Esse movimento de encontrar um propósito em meio às ruínas é o que a ciência do trauma batizou de Crescimento Pós-Traumático (CPT). Não estamos falando de um positivismo tóxico que ignora as feridas. O CPT reconhece que você carrega cicatrizes profundas, mas prova que o trauma pode ser o adubo para uma versão muito mais forte, resiliente e autônoma de você mesmo.

O seu cansaço não é fraqueza

Se você se reconheceu em cada linha deste texto, talvez seja importante compreender uma coisa: o seu cansaço não é fraqueza. Ele pode ser a expressão de uma exaustão profunda de quem passou tempo demais em uma trincheira que deveria ter sido um lar.

Quando o lugar que deveria oferecer proteção se transforma em fonte de ameaça, o corpo e a mente podem permanecer em estado de alerta por tempo prolongado. Sobreviver, nesse contexto, exige uma quantidade de energia que nem sempre é visível para quem está de fora.

As marcas do abuso são reais

As marcas deixadas pelo abuso não estão apenas na memória. Experiências prolongadas de ameaça e violência podem repercutir sobre o funcionamento emocional, cognitivo e fisiológico do organismo.

Isso não significa que essas marcas determinem para sempre quem você é. O sofrimento pode alterar trajetórias, mas não precisa definir o destino.

O cérebro também pode se transformar

A neuroplasticidade demonstra que o sistema nervoso possui capacidade de adaptação e reorganização ao longo da vida. Isso não significa uma “cura” automática do trauma, nem uma capacidade infinita de regeneração, como se bastasse desejar mudar.

A recuperação depende de múltiplos fatores, entre eles segurança, vínculos confiáveis, ambiente adequado e, quando necessário, acompanhamento profissional. O cérebro não apaga simplesmente aquilo que viveu, mas pode construir novas formas de responder à experiência.

O futuro ainda pode ser escolhido

Ninguém deveria ter que se desculpar por simplesmente sobreviver. Mas sobreviver não precisa significar passar o resto da vida apenas esperando o próximo impacto.

O abuso pode ter tentado confiscar o seu futuro, mas não precisa ter a última palavra sobre a sua existência. Você não escolheu tudo o que lhe aconteceu, mas pode participar da construção daquilo que virá.

A liberdade de escolher quem seremos diante do sofrimento é uma dimensão fundamental da existência. E talvez reconstruir a própria vida comece justamente quando deixamos de perguntar apenas como sobreviver ao que aconteceu e começamos a perguntar: quem desejo ser depois disso?






Soraya Rodrigues de Aragão
Soraya Rodrigues de Aragão é psicóloga, psicotraumatologista e escritora. Estudou Psicologia na Universidade de Fortaleza- UNIFOR e na Università Maria Santissima Assunta- LUMSA. Equivalência do curso de Psicologia na Itália resultando em Mestrado. Especialista em Psicotraumatologia pela A.R.P. de Milão. Especialista em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde pela Sociedad Espanola de Medicina Psicosomatica y Psicoterapia- SEMPyP Especialista em Psicoterapia Breve de Casais pela SEMPyP e Universidad San Jorge. Curso superior universitário em Transtornos de personalidade- FA e Universidad Catolica San Antonio de Murcia. Curso Superior universitário em acompanhamento e intervenção terapêutica em processos de luto- FA e Universidad Catolica San Antonio de Murcia. Curso Universitário em dependência emocional- Fa e Euneiz. Especializanda em Transtornos de personalidade pela SEMPyP e Universidade San Jorge. Autora dos livros: Fechamento de ciclo e renascimento- Este é o momento de renovar a sua vida, Liberte-se do Pânico, Supere desilusões amorosas e pertença a si mesmo e do livro infantil Talita e o Portal.