A pobreza espiritual de uma sociedade que minimiza a perda de seus idosos

Thálitha Miranda

Tivemos a triste notícia de que o ator Flávio Migliaccio, optou pelo autoextermínio, aos 85 anos. Ele deixou uma carta para família onde revelou sua tristeza pelo descaso em que os idosos são tratados no Brasil. Sua história, inspirou a seguinte reflexão:

“Não se preocupem, este coronavírus mata apenas os idosos” – “Se tivermos que escolher entre um jovem ou um idoso para salvar,  precisaremos escolher quem tem mais chance de sobrevivência”.  Estas são algumas das terríveis frases que temos ouvido de governantes desalmados e autoridades da área da saúde.

A sociedade que venera o corpo e condena a alma á decadência

Entretanto essa desconsideração para com os idosos é fruto da pós-modernidade.  Nestes tempos hedonistas, os os idosos são considerados os novos desvalidos do mundo. Uma parte considerável da população considerada improdutiva e dispendiosa, que os governos do mundo todo, são obrigados, por causa dos Direitos Humanos, a suster. Sustento este que deveria (porque há condições) ser digno, honroso, altruísta e eficiente em termos gerais.

Nas sociedades primitivas, os velhos eram objetos de veneração. Os jovens a eles recorriam em busca de seus conselhos, eram respeitados e lhes confiavam negócios. Na antiga China, o filósofo Confúcio pregava que todos os elementos de uma família deveriam obedecer os mais velhos.

No século XVIII, o idoso era tido como patrimônio e não encargo

Em geral, as sociedades da antiguidade, consideravam o estado de velhice dignificante e adotavam como sábio aquele que atingia essa etapa. Passou s ser importante o papel de ancião, época terminal da vida, que aos que nela ingressavam era reservado um papel de intensa atuação nos destinos políticos dos grupos sociais e na tomada de decisões importantes.

Com a evolução e progressão em andamento e, fruto da revolução industrial, ocorre uma inversão de valores, em vez da sabedoria, passa-se a julgar o homem pela sua capacidade de produção -muito mais próxima do jovem – e, ao idoso começa a restar um lugar de exclusão e marginalização.

O que damos hoje aos idosos é o que receberemos amanhã

A humanidade atualmente é marcada pela qualificação do potencial da juventude em detrimento da velhice estabelecida por improdutividade e decadência.

O fato de ainda não existir a integração de grupos etários mais jovens com os mais velhos, tem a participação de ambos os lados, em que associa-se a rejeição do idoso ao próprio envelhecimento, os valores que norteiam as gerações mais novas e a insistência dos mais velhos em manter e impor valores culturais do passado.

A integração do homem, nesta etapa de vida, deve equilibrar atividade e isolamento com atendimento às suas necessidades sociais no nível que promovam uma nova visão sobre a velhice e um novo espaço criado pela sociedade.

O envelhecimento social nos aponta um percurso a percorrer na adaptação do idoso como meio social e passa por analisarmos com muito cuidado e zelo a perda de seu papel funcional-profissional e papel referente à família – função de responsabilidade.

As perdas desses papéis conduzem à inadaptações que levam ao isolamento social. Toda vida importa. Esquecer sobre isso nos entorpece e perigosamente nos aproxima da sociedade distópica que Lois Lowry escreveu.

Pelo direito de envelhecer com dignidade

“Os velhos são seres humanos como os demais. Portadores dos mesmos direitos dos quais todos os outros são titulares. Acontece que ser velho não representa apenas ser velho. O velho não nasceu velho, ele foi criança, adolescentes, adulto para, finalmente, ser velho. Observe-se que se não são assegurados direitos elementares às pessoas quando ainda elas são crianças, adolescentes e adultas, elas simplesmente perdem o direito de se tornarem velhas e tornar-se velho é um direito humano fundamental, já que é a própria expressão do direito a vida, que precisa ser garantida até quando a natureza biológica indicar. Ademais, a velhice é decorrência de condições sociais favoráveis de existência ou dos avanços da tecnologia médica ou ainda de ambos.

Se for resultado de condições dignas de existência, ótimo, o Estado cumpriu seu papel, se não, a dignidade humana está sendo aviltada, porque em modelo social tendo permitido que as pessoas vivam mais, precisa assegurar-lhes condições mínimas de existência, dentro das conquistas incorporadas ao patrimônio comum da humanidade. Sendo assim, a velhice é um direito humano fundamental, porque expressão do direito à vida com dignidade, direito essencial a todos os seres humanos. Ademais, a velhice cumpre uma função social de extrema importância, que é justamente a de facilitar a continuidade da produção humana na ordem dos valores, daquilo que pode justificar a vantagem de viver e assegurar a qualidade de vida”. (Ramos, 2002, 50).

Isso significa que essa luta pertence a todos. E não é uma luta pela sobrevivência individual, mas pela sobrevivência coletiva. Pela sobrevivência dos grupos mais vulneráveis. E pela sobrevivência do que resta de humanidade em cada um de nós. Porque, embora seja verdade que, em circunstâncias extremas, o pior das pessoas vem à tona, o melhor que temos lá dentro também vem à tona. A decisão é nossa.

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Foto de capa: Flávio Migliaccio, ator brasileiro que recentemente tirou sua própria vida, aos 85 anos. Em carta para família afirmou “A velhice neste país é o caos como tudo aqui”.  / Foto: Marcos Arcoverde/Estadão Conteúdo (Arquivo: 01 de abril de 2014).

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Thálitha Miranda
Thálitha Miranda, 22, libriana, co-produtora do Portal Raízes