A vida é uma busca constante por felicidade e paz. E, no meio dessa jornada, aprendemos que a nossa saúde mental é o bem mais precioso que temos. Duas frases poderosas, inspiradas na psicóloga Sherrie Campbell, nos convidam a refletir sobre isso:
“A sua saúde mental é o seu projeto de vida mais urgente e qualquer laço que a ameace deve ser reavaliado. Sua vida adulta é a sua chance de protagonizar sua história. Não permita que o passado ou outras pessoas, decidam com conduzi-la”.
Essas ideias são da psicóloga especialista em parentalidade tóxica, Sherrie Campbell, em seu best-seller But It’s Your Family – traduzido livremente como ‘Mas é sua Família’). A obra é um guia para quem precisa se libertar de relacionamentos familiares que causam dor, desafiando a velha ideia de que devemos aceitar tudo em nome do parentesco.
Quando a Convivência Parental Deixa de Ser Obrigação para Ser Escolha
Por muito tempo, a família foi vista como algo sagrado e inquestionável. A ideia de “honrar a família” significava, muitas vezes, engolir o sofrimento e o abuso. No entanto, com o avanço da psicologia e a valorização da saúde mental, essa visão está mudando.
O trabalho de Campbell se encaixa perfeitamente nesse momento, onde a lealdade a si mesmo se torna a maior responsabilidade. O surgimento de termos como “família tóxica” e a prática de se afastar (o chamado no contact) mostram que a prioridade não é mais manter a estrutura familiar a qualquer custo, mas sim garantir a paz de espírito do indivíduo. A vida adulta é o momento de pegar o roteiro da sua vida e reescrevê-lo, deixando para trás as amarras do passado.
A Dupla Dor do Abuso
Sherrie Campbell explica que a toxicidade familiar tem duas partes. A primeira é o mau tratamento em si (a crítica, a manipulação, o desrespeito). A segunda, e muitas vezes a mais difícil, é a negação desse problema. É quando a vítima se sente obrigada a justificar ou aguentar o sofrimento só porque “é da família”. O livro nos dá as ferramentas para quebrar essa negação e começar a curar.
1. Desfazendo o Mito do Sangue
O maior peso para quem pensa em se afastar é a crença de que o sangue cria uma dívida eterna. Campbell nos lembra que o parentesco é biológico, mas a família de verdade é construída com afeto e respeito. Se a convivência é baseada em dor e desrespeito, a obrigação de ficar desaparece. Você tem o direito de escolher quem faz parte da sua vida.
2. O Limite como Escudo de Proteção
Para Campbell, o limite não é uma punição, mas um escudo de segurança. É o espaço onde a sua dignidade não pode ser invadida. Colocar limites de forma clara e firme é o primeiro passo para se proteger. Se o limite é sempre quebrado, o afastamento (parcial ou total) deixa de ser uma escolha e se torna uma necessidade de sobrevivência.
3. Curando as Marcas da Infância
A vida adulta é a sua chance de encarar e curar as feridas que a infância deixou. A toxicidade familiar cria um legado de baixa autoestima e padrões de relacionamento ruins. A autora reforça que você é o curador da sua própria história, com o poder de impedir que esse trauma se repita. Reescrever o passado não é esquecê-lo, mas sim dar um novo significado a ele.
4. O Foco na Sua Paz: Não é Egoísmo
A saúde mental é o seu bem mais importante. Campbell a coloca como o projeto de vida mais urgente. Qualquer relacionamento que exija a sua paz como preço é caro demais. Priorizar sua saúde não é egoísmo; é um ato de responsabilidade com você mesmo. Afinal, só uma pessoa saudável pode ser boa para os outros.
5. A Família que Você Escolhe
Ao se afastar de laços que machucam, você não fica sozinho. Pelo contrário, você abre espaço para a reconstrução. A “família escolhida” – amigos, parceiros, pessoas que te apoiam – se torna o seu novo porto seguro, baseado em respeito e afeto verdadeiro. Campbell celebra essa rede como a prova de que o sentido da vida está nas relações que você constrói, e não nas que lhe foram impostas.
10 Formas de Se Afastar de Familiares Tóxicos Sem se Sentir Culpado
Para que as ideias de Sherrie Campbell se tornem práticas, aqui estão 10 ações simples que você pode começar a usar hoje:
1. Limite o seu tempo. Exemplo: Se for a um evento familiar difícil, diga logo ao chegar: “Que bom ver vocês, mas só posso ficar uma hora, tenho outro compromisso.” Isso estabelece um limite de tempo claro e evita o esgotamento.
2. Disco Furado: Repita seu limite sem se justificar. Exemplo: Se um familiar começar a criticar sua vida, diga calmamente: “Eu entendo sua preocupação, mas não vou discutir esse assunto.” Se ele insistir, repita a frase. A repetição tira o poder da manipulação.
3. Crie Um Filtro de Informação: Não compartilhe detalhes pessoais. Exemplo: Mantenha a conversa em assuntos neutros (clima, notícias, filmes). Se perguntarem algo íntimo, responda com um sorriso: “Está tudo ótimo, obrigado por perguntar!” Informação é poder, e você controla quem a tem.
4. A Saída de Emergência: Tenha um plano de fuga pronto. Exemplo: Antes de ligar ou ir a um encontro, combine um código com um amigo ou parceiro (“Me liga em 15 minutos, por favor”). Use a ligação como desculpa para sair quando a situação ficar insustentável.
5. Tenha Diário Mental da Sanidade: Monitore seu bem-estar. Exemplo: Anote em um caderno como você se sente antes e depois de interagir com a pessoa tóxica. Se a sensação for sempre de esgotamento, é um sinal claro para reduzir o contato. Use fatos, não apenas sentimentos, para tomar decisões.
6. O Bloqueio Estratégico: Use as ferramentas digitais a seu favor. Exemplo: Silencie grupos de WhatsApp ou use a função de “pausar notificações” para evitar a ansiedade de mensagens constantes. Você decide quando ler e responder, retomando o controle do seu tempo e atenção.
7. A Família do Coração: Invista em quem te faz bem. Exemplo: Após um contato difícil, ligue ou encontre um amigo que te apoia de verdade. Reforce os laços com as pessoas que validam quem você é. O afeto construído cura o afeto negado.
8. Responda de Forma Neutra: Não entre no jogo da discussão. Exemplo: Se for provocado, não se defenda nem ataque. Use frases curtas e neutras: “Essa é a minha decisão,” ou “Respeito sua opinião, mas farei de outro jeito.” Isso impede que a discussão se prolongue.
9. Concentre-se na Sua Maturidade Emocional: Lembre-se que você é adulto. Exemplo: Quando sentir que a crítica de um familiar te faz voltar a ser a criança ferida, pare e diga a si mesmo: “Eu sou o adulto, eu decido minha vida, e a opinião dele(a) não me define mais.” É um exercício de auto-validação.
10. Compre um Presente para Si: Recompense-se por se proteger. Exemplo: Após um evento familiar estressante, tire um tempo só para você. Pode ser uma hora lendo, assistindo a um filme, ou simplesmente descansando. É o seu presente por ter se priorizado e cuidado da sua saúde mental.
Conclusão: O Despertar do Sujeito
A dor de se afastar de um familiar é, na verdade, o primeiro passo para se reencontrar. A psicologia nos ensina que somos moldados pelas nossas primeiras relações. Se elas foram tóxicas, nosso eu verdadeiro pode ter ficado escondido. O ato de reavaliar esses laços e colocar a saúde mental em primeiro lugar é um despertar. É a coragem de dizer: “Eu sou importante, e a minha felicidade não será negociada”.
Não se trata de odiar ou buscar vingança, mas de fazer um luto necessário pela família que você merecia ter. Ao aceitar essa realidade, você se liberta para construir um futuro onde o afeto é sinônimo de segurança, e não de ameaça. A cura é um processo de cuidar de si mesmo, onde o adulto que você se tornou protege e ama a criança ferida que vive dentro de você.

