“As relações afetivas, hoje, são mais honestas, isto é, elas têm um nível maior de transparência em relação à possibilidade. Hoje é mais difícil eu enganar alguém, não só porque eu deixo rastros tecnológicos, mas por todos os passos que eu dou e que podem ser facilmente descobertos. Isso permite um nível maior de atenção com aquela relação que não seja fingida estritamente.

Mas hoje também nós temos uma vida mais apressada, temos menos tempo para o amor – a vida não é mais veloz e, sim, mais apressada. Não podemos confundir pressa com velocidade. Por exemplo, eu quero velocidade na hora de ser atendido por um médico, mas não quero pressa na consulta; eu quero velocidade na hora de sentar para comer alguma coisa, mas não quero comer apressadamente. Ora, o que nós temos hoje não é uma vida veloz e, sim, uma vida cheia de pressa, e essa vida cheia de pressa destruiu uma parte do tempo para o afeto, porque ter afeto dá trabalho, e para ter trabalho é preciso tempo, o que nós não temos.

Por que não temos tempo? Porque ficamos absolutamente conectados, inclusive naquilo que não precisamos, isto é, você ocupa seu tempo sobrante com uma série de coisas absolutamente superficiais. O que me importa entrar na internet e saber que uma mulher no Nepal teve trigêmeos? Ou quanto ganha o jogador de hóquei no Canadá? Ou qual foi o resultado do placar de uma partida de futebol que aconteceu na Tanzânia? E as pessoas nos fustigam o dia inteiro com essas informações, replicam, postam e querem que você goste, e se você não diz que gosta é uma ofensa pessoal. É a busca pelo clique, e isso é desesperador.

Hoje nós temos relações mais honestas e transparentes, mas uma parcela grande delas é superficial porque não temos tempo, e o amor exige tempo, tanto o amor fraternal, o filial, o maternal, sensual exigem tempo, e não temos tempo porque estamos ocupados com o inútil”.

Trecho de uma fala do professor Mario Sergio Cortella. Extraída do vídeo “Basta de cidadania obscena. Assista na íntegra:

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