“Bêbados” de cansaço: trabalhar em excesso é pior que dirigir alcoolizado, diz estudo

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Longas jornadas de trabalho aumentam os riscos de acidentes, os níveis de estresse e provocam até dor física. Mas o grande problema é que muitas pessoas simplesmente não podem evitá-las, pois têm medo de perder seus empregos. De que ao lutar por seus direitos, perderá sua vaga para um que esteja desempregado e aceitará trabalhar mais e para ganhar menos.

Por isso é muito interessante aos empresários que crises econômicas aconteçam no país e com ela milhões de pessoas fiquem desempregadas, com isso, podem contratar mão de obra mais barata. (Veja mais sobre isso em 10 táticas políticas usadas para nos manipular)

A realidade é esta:

De acordo com as últimas estatísticas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de 400 milhões de pessoas trabalham 49 ou mais horas por semana, uma proporção considerável do quase 1,8 bilhão de trabalhadores em todo o mundo.

Há um dito popular que postula que quem não trabalha, não deve comer. Mas a comida que é feita para matar a fome, vai para quem tem fome ou para quem tem dinheiro? Você sabia que se todas as pessoas do mundo trabalhassem, ninguém trabalharia mais que 4 horas por dia e não existiria fome na Terra? Mas a realidade é que num sistema capitalista, só come quem tem dinheiro, e a maioria que tem dinheiro não trabalha, vive fartamente da exploração e do excesso de trabalho de outros.

Mas esgotar-se de tanto trabalhar, como se isso valesse uma medalha de honra, abre precedentes perigosos ás saúdes física, mental e emocional. Trabalhar por muitas horas e finais de semanas se tornou uma marca da cultura de startups do Vale do Silício – e tem se espalhado por várias partes do mundo.

Há muitas evidências de que trabalhar demais reduz a produtividade, além de fazer com que a pessoa se sinta – e às vezes de fato esteja – menos saudável. Esse estilo de vida aumenta as chances de desenvolver várias doenças.

Ainda assim, milhões de trabalhadores parecem incapazes de se voltar contra isso, desde médicos a trabalhadores em fábricas, industrias e diaristas. E o que acontece, então? O que nós podemos fazer a respeito?

Isto vai doer

As leis que regem os direitos trabalhistas são sempre conduzidas às reformas que ao invés de melhorarem as condições e os direitos da classe trabalhadora, passam a assegurar mais garantias aos patrões. Pode parecer óbvio que uma pessoa que trabalha em excesso ficará extremamente cansada e, portanto, mais propensa a sofrer um acidente no trabalho e desenvolver desajustes emocionais, distúrbios do sono, distúrbios alimentares, crises de ansiedade, dores crônicas e desencadeamento de transtornos mentais graves do tipo Depressão, Síndrome de Burnout, Síndrome do Pânico. Mas provar que essas doenças têm relação com o excesso de trabalho é impressionantemente difícil, em especial com nova reforma trabalhista aprovada em 2018 no Brasil, por exemplo.

Trabalhar em excesso é como dirigir bêbado, indica estudo 

Um estudo que analisou 13 anos de registros de trabalho nos Estados Unidos descobriu que “trabalhar em empregos com horas extras estava associado a uma taxa de risco de lesões 61% maior em comparação com trabalhos sem hora extra”.

Esse estudo não chega a dizer que o cansaço é a principal causa do aumento de risco, mas há amplas evidências disso. Por exemplo, se você acordou às 8h e ficou em atividade até 1h do dia seguinte (ou seja, ficou acordado por 17 horas seguidas), seu desempenho físico provavelmente será pior do que se você tivesse uma concentração de 0,10% de álcool no organismo. Essa é a média que um homem de 73 kg teria se tivesse bebido duas latas de 355ml de cerveja e fosse dirigir. É isso: você está “bêbado” de cansaço.

Mais de 400 milhões de empregados no mundo do trabalham 49 horas ou mais por semana de acordo com a OIT. Se você permaneceu acordado até 5h, a disfunção seria parecida a ter 0,1% de álcool no sangue – 0,08% é considerado o limite legal para dirigir na maioria dos países do mundo (Lembrando que, no Brasil, a tolerância ao álcool é zero).

Portanto, um indivíduo que trabalha até 49 horas por semana, terá seu desempenho físico (como o tempo de reação ou coordenação motora) tão prejudicado quanto se ele estivesse bêbado ao volante. E se você, “alcoolizado” não pode dirigir, é capaz de trabalhar com segurança e competência? Mas o receio de perder o emprego, de não conseguir honrar seus compromissos é tão grande, que você se arrisca.

Talvez digitar em um computador não seja tão arriscado, mas isto é certamente algo importante a ser levado em conta se você faz um trabalho físico ou manual – ou se seu trabalho requer atenção a detalhes, ou se você opera máquinas, ou precisa trabalhar em locais com risco de acidentes graves. E não são poucas as pessoas que ficam presas a um ciclo vicioso – elas dependem das horas extras para conseguir ter um rendimento que pague as contas. E ficam reféns de um sistema que as incentiva a trabalhar várias horas extras ou à noite, e/ou finais de semana.

“Preciso tanto do dinheiro que trabalharia 18 horas em um dia”

É importante ressaltar que os estudos, mencionados acima, foram feitos na Europa, Reino Unido, e Estados Unidos, onde há mais espaço para negociações trabalhistas e sendo assim, os trabalhadores se valem de Leis que os protegem em caso de terem de se afastar do trabalho por causa de doenças desencadeadas pelo excesso de trabalho. No entanto, pesquisas de campo, feitas no Brasil, indicaram que há sinais de que esse ciclo de horas extras está se tornando parte da cultura da exploração do trabalhador. Mais da metade dos trabalhadores admitem terem que trabalhar com muita rapidez: 60% trabalham com prazos apertados e 22% sentem dores relacionadas ao excesso de horas trabalhadas.

Sempre à disposição: urgente é tudo aquilo que você não consegue fazer em tempo hábil e exige que eu faça em tempo record 

Como mostrado por um artigo de Ian Tower, pesquisador da Universidade SRH Hochschule em Berlin, a tecnologia móvel “aumenta as expectativas: gerentes e colegas esperam que a equipe esteja sempre pronta para trabalhar além do escritório, da empresa, da fábrica…”.

Mas estar disponível não é o mesmo que estar de folga, e a forma como o corpo reage a tais situações é diferente. Um estudo de 2016 descobriu que os níveis de cortisol (o hormônio que regula a reação de “lutar ou fugir” e que tem papel importante no estresse) de pessoas que estão à disposição aumentam mais rápido de manhã, mesmo que elas não trabalhem naquele dia.

Esse hormônio geralmente tem um pico de concentração quando acordamos e sofre redução ao longo do dia. Mas cientistas acreditam que fatores de estresse diário alteram esse ciclo: os níveis sobem mais rápido se for esperado que o dia será estressante (esse seria o caso no exemplo acima), os níveis permanecem altos se você está cronicamente estressado, e seus níveis não aumentam se você estiver sofrendo uma síndrome de burnout – geralmente precedida por um período de estresse crônico.

Como resultado, as pessoas têm dificuldade de se distanciar mentalmente do trabalho quando estão de sobreaviso, além de evitarem fazer atividades que realmente querem – o que pesquisadores chamam de “controle”.

Em outras palavras: os trabalhadores sentem que o período em que eles estão de sobreaviso não é de fato deles, e o nível de estresse sobe por conta disso. Portanto, os pesquisadores concluem que os dias em que se requer disponibilidade “não poderia ser considerado como tempo de lazer, porque a recuperação – função crucial desse momento – fica restrita a tais circunstâncias”.

O que fazer?

Tome isso como um alerta: se puder evitar trabalhar tanto, faça isso, já que o excesso de trabalho não tem efeitos positivos ás saúdes físicas, mentais e emocionais, ao seu bem-estar e a sua produtividade. Mesmo que você pense ser uma exceção ou uma fase, provavelmente não é.  Claro que não é fácil para ninguém largar um emprego, mesmo que este seja de um salário injusto e de horas massacrantes, para procurar um novo trabalho com condições dignas de salários e que se faz valer todos os seus direitos. Entretanto, a vontade e amor próprio para sair de um trabalho injusto se esbarram na necessidade de manter-se empregado; nas estatísticas que apontam milhões de desempregos, e na crença de que não se deve ao menos manifestar suas indignações, sequer com greves, sob o grande risco de perder seu emprego. Faz-se urgente a compreensão de os trabalhadores só precisam acreditar em si mesmos. Se unirem e juntos lutarem por direitos, lutarem para serem tratados como escravos. Só a luta pode derrotar as injustiças e garantir equidade e saúde.

Leia mais sobre este assunto:

Estudo publicado na BBC – Carta Capital – Traduzido e adaptado por Portal Raízes

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