O Talibã também é aqui, Malala. O Brasil segue exterminando estudantes pobres

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Conhecida internacionalmente por sua defesa ao direito das meninas à educação, a ativista Malala Yousafzai vem pela primeira vez ao Brasil. Ela chegou a São Paulo nesta segunda-feira 9/07, para falar, a convite do Itaú Unibanco, sobre um tema: o poder transformador da educação e da leitura.

A violência vivida por Malala encontra ecos no Brasil. No final de junho, o jovem de 14 anos Marcos Vinícius foi morto no caminho para a escola durante uma operação policial na favela da Maré, no Rio de Janeiro. Num país onde crianças pobres, maioria negras, são impedidas de irem à escola por causa da violência, as palavras de Malala gritam a nossa vergonhosa realidade de que não é só violência que tem matado nossos jovens, mas principalmente, a opressão oriunda de um sistema corrupto.

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram registradas 61.619 mortes violentas, o que equivale ao número de mortes provocadas pela bomba atômica em Nagasaki, no Japão. A letalidade policial cresceu 25,8%. De acordo com o diretor do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, os números registrados no país são, “no mínimo, obscenos”.

A letalidade das polícias nos estados brasileiros aumentou 25,8% em relação a 2015: 4.224 pessoas foram mortas em decorrência de intervenções de policiais civis e militares. Quase a totalidade das vítimas é homem (99,3%), jovem (81,8%), tem entre 12 e 29 anos, negros (76,2%), pobres e vivem na periferia.

O estudo ainda concluiu que 40% das escolas não possuem esquema de policiamento para evitar violência em seu entorno e 70% dos professores e diretores presenciaram agressão física ou verbal entre os alunos.

Ela vai participar de um evento fechado para convidados no Auditório Ibirapuera, com a presença de alunos de escolas públicas e representantes de ONGs brasileiras.

Quem é Malala Yousafzai

Malala nasceu na pequena cidade de Mingora, no Paquistão, no dia 12 de julho de 1997. Aos 15 anos, a jovem foi baleada na cabeça pelo grupo rebelde talibã Tehrik-e-Niswan, que  acredita que as mulheres, desde cedo, devem aprender a ser exímias donas de casa. Escola? Faculdade? Estudo? Ah! Nada disso são coisas de menina.

A questão é que Malala sempre pensou de forma diferente. Desde criança, ela se destacava por ser uma excelente e dedicada aluna. O tempo passou e o interesse da jovem pelo conhecimento só aumentou. Malala não reclamava de precisar acordar cedo para chegar ao colégio; ela reclamava se era proibida de ir para a aula.

Apesar das constantes ameaças feitas pelos talibãs que não admitem que garotas frequentem a escola, Malala continuou com os estudos. Foi então que o pior aconteceu. No dia 9 de outubro de 2012, a garota levou um tiro na cabeça assim que deixou o colégio. Mas engana-se quem pensa que isso a parou. É claro que ela sofreu. Ela teve medo. Muito medo! Pelo menos, de início. Depois, ela sentiu que precisava fazer ainda mais por ela e por suas colegas paquistanesas, cujo maior crime é querer estudar.

“Há muito mais gente que merece o Nobel da Paz. Ainda preciso trabalhar muito. Na minha opinião, ainda não fiz tanto assim para ganhá-lo”, disse a adolescente em entrevista à rede BBC, em outubro de 2013.  Malala Yousafzai tornou-se a mais jovem vencedora do prêmio Nobel da Paz, por sua “luta contra a supressão das crianças e jovens e pelo direito de todos à educação”.

O livro “Eu Sou Malala – A Historia da Garota Que Defendeu a Educação e Foi Baleada pelo Talibã”, lançado em 2013, conta toda a história dessa jovem superpoderosa, que acredita que as palavras (e os livros) têm o poder de mudar o mundo.

Relembre  12 frases marcantes de Malala:

“Eles acham que Deus é um pequeno ser conservador que mandaria garotas para o inferno apenas porque vão à escola. Os terroristas estão deturpando o nome do Islã e da sociedade paquistanesa para satisfazer seus próprios interesses”.

“Não odeio o talibã que atirou em mim. Mesmo que eu tivesse uma arma e ele estivesse na minha frente, não atiraria nele”.

“No Paquistão, quando sou proibida de ir a escola, compreendo o quão importante é a educação. A educação é o poder das mulheres”. (Revelou em entrevista ao programa The Daily Show).

“As garotas da Nigéria são minhas irmãs, então é minha responsabilidade falar por minhas irmãs. Acredito que somos uma comunidade e que devemos cuidar uns dos outros”, disse Malala em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da rede de televisão CNN.

“Minha mãe pedia para eu cobrir o rosto, porque os meninos estavam me olhando. E eu falava: ‘mas eu também estou olhando para eles, mãe!”. (Em entrevista à apresentadora Christiane Amanpour, da rede CNN).

“Deus me deu uma nova vida, uma segunda vida. E eu vou aproveitá-la. Vou servir aos outros. Quero que todas as meninas, todas as crianças, recebam educação”. (Declarou durante seu primeiro discurso após ao ataque, registrado pela AFC).

“Uma criança, um professor, um livro e um lápis podem mudar o mundo”.

“Eu não me importo se eu tenho que sentar no chão na escola. Tudo o que eu quero é educação”.

“Se a mulher pode ir para a praia e vestir quase nada, então por que ela não pode vestir qualquer coisa?”.

“Os extremistas têm mostrado com o que eles querem travar sua luta: contra uma garota com um livro”.

“Eu sonho com um país onde a educação prevalecerá”.

“Eu disse para mim mesma: ‘Malala, você deve ser corajosa. Você não deve ter medo de ninguém. Você só está tentando se educar. Você não está cometendo nenhum crime”. ( Revista Glamour norte-americana, em 2013).

“Nós percebemos a importância de nossa voz quando somos silenciados”.

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