“Não sou saudosista da juventude. Quando temos filho pequeno, não podemos morrer. Eu posso, sem medo”.

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“Olho para trás e o que vejo me agrada. Vivi com abundância, a palavra melhor é essa. Abundância biográfica de países, de línguas e culturas. Abundância de situações, as favoráveis e as adversas. Abundância de encontros com pessoas preciosas, com criaturas admiráveis, e alguns poucos canalhas, úteis como referência. Trabalhei em muitas coisas diferentes e de todas gostei, porque de cada uma fiz um degrau de aprendizado que me permitiu desempenhar a próxima. Li quase todos os dias da minha vida, fosse pouco ou muito, enchendo a mochila de dados que eu embaralharia, de nomes que se iriam no vento, mas conservando as emoções que os livros me davam.

 

Não escrevi tanto quanto li, nem teria sido possível. Mas o que escrevi está de acordo comigo e me representa mais generosamente que uma selfie. 80 anos são uma tremenda esquina da vida. Com certeza chegamos a ela mais frágeis, porque a possibilidade de morte, que sempre foi a mesma mas que antes parecia eventual, ganha uma certa concretude. E, ao mesmo tempo, chegamos mais fortes porque a maior parte do caminho foi percorrida, as inseguranças da juventude ficaram para trás, alguma tantas perguntas já foram respondidas, e o que havia a fazer já foi feito… Aos 80, considero todo dia como um presente dos deuses, embora até hoje não saiba quem são eles. E toda noite agradeço com gratidão, mesmo com a indecisão do endereço.” “Não sou saudosista da juventude. Não me queixo: acho minha idade ótima.

Não tenho medo da morte, não quero viver muito. A cara era mais bonita antes, mas está bem assim. Ando viajando como uma louca, trabalhando como sempre, ou até mais. As filhas estão criadas. Quando temos filho pequeno ou desestabilizado, não podemos morrer. Eu posso, sem medo”.

Marina Colasanti, 83 anos, escritora, contista, jornalista, tradutora e artista plástica ítalo-brasileira. A autora publicou mais de 70 obras para crianças e adultos.

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