Ninguém se torna corruptível. Quem não é, nunca será!

Clara Dawn

Recentemente vimos dois casos em que “o amor ao dinheiro se provou mais uma vez que é a raiz de todo mal”. Nesses casos, é o amor ao dinheiro e ao poder: por um lado o padre Robson da basílica de Trindade em Goiás, envolvido num grande escândalo de corrupção por desviar o dinheiro dos fieis para o próprio enriquecimento. Entre 2008 e 2018, as três associações, presididas pelo padre, movimentaram 2 bilhões de reais. O outro caso o de Flordelis, deputada conhecida como pastora, cantora evangélica e mãe adotiva de 56 filhos, que acaba ser indiciada pelo assassinato de seu marido, o pastor Anderson. Segundo a Polícia Civil, Flordelis foi indiciada por homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio, falsidade ideológica, uso de documento falso e organização criminosa. A motivação para o crime? Ela estava insatisfeita com a forma que o marido tocava a vida e fazia a movimentação financeira da família.

O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente? 

Com base nesses dois casos envolvendo pessoas de “admirável e exemplar conduta moral”, a pergunta que se faz é: o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente?

Ninguém se torna um corrupto. Se em algum momento da vida cometeu atos de corrupção, é porque é corruptível. É claro que pessoa alguma nasce corrupta, mas há em si uma natureza corruptível e corruptora. O poder, seja ele qual for: religioso, político, esportivo, intelectual, artistismo, familiar, social… não corrompe as pessoas. A questão é que pessoas corruptíveis e corruptoras têm uma fissura, um fascínio pelo poder e uma vez que exercem funções de poder, certamente o usarão para colocar em prática sua excelência corruptível. Em outras palavras, o poder é uma ferramenta de luta, e como ela é usada depende do caráter latente de seu possuidor. A mesma espada pode ser usada para o bem ou para o mal, depende de quem a empunha.

Essas pessoas corruptíveis têm uma desculpa: ‘se você estivesse lá com tantas oportunidades de se dar bem, você faria o mesmo. O poder mexe com a gente’. Esse conceito de poder, nos faz lembrar do anel de Sauron, da obra ‘O Senhor dos Anéis’ de J.R.R. Tolkien onde aquele que possui o anel, mesmo sendo uma pessoa decente, o anel o transformará num degenerado. Afirmando com isso que o poder é uma força externa que entra na pessoa e a prostitui.

Ora, se assim é, quem em sua infinita sanidade moral, buscaria pelo poder? Não é verdade que o poder, a fama, o dinheiro, o sucesso corrompem. Há um sem número de pessoas que se tornam ricas, famosas, poderosas e não se tornam pessoas corruptíveis, corruptores, opressoras, excludentes, não se tornam más. Em vez disso, revelam aquilo que há de melhor em si mesmas, sendo membros produtivos da sociedade e em suas listas de atividades terrenas, incluem a luta contra toda ordem de opressão e exploração. Provando com isso que o poder não as corrompeu, mas lhes proporcionou uma chance maior de fazer o bem.

O poder não corrompe, revela

O psicanalista Fabio Herrmann, em seu artigo ‘O poder não corrompe, revela’ (2005), traz a seguinte assertiva: “O que se vê a todo momento em qualquer circunstância, é que, uma vez o poder posto em jogo, a natureza era aquela mesma, não era outra. Simplesmente o poder pôs em relevo e fez com que aparecesse o que já era – a mala preta do juiz de futebol apenas ainda não havia aparecido antes. Deixe-me sugerir-lhes algumas coisas. Primeiro, que o poder serve para revelar. Segundo, esse poder de conquista analítica só chega àqueles que o desejam fortemente e que sabem manejar com habilidade a psicologia coletiva para consegui-lo”.

O fato é que nós seremos ignorantes acerca de quem são realmente os nossos líderes até que estudamos a fundo as suas práticas do passado e jamais consideramos a hipótese de que se errou no passado aprendeu a lição e não errará de novo. Porque não temos esse hábito investigativo e não contundente, os políticos que escolhemos são corruptíveis. E é aí que os dirão que nós somos culpados por não termos escolhido direito, como se os corruptíveis viessem com uma placa de identificação na cabeça. A placa de identificação não está na cabeça, mas com certeza está no passado de cada um.

Não somos todos corruptos, corruptíveis ou corruptores

‘O mal puro é apenas um mito’, argumenta Baumeister, e continua: ‘a pessoa que pratica o mal justifica a moralidade de suas ações para si mesma de alguma maneira. Ao se convencer de que seu comportamento é moral, essa  pessoa pode se separar e se desvincular do comportamento imoral e de suas consequências’. Um bom exemplo disso, foi o fato de Jim Jones, pastor cristão, que conduziu 918 pessoas ao suicídio coletivo em Jonestown, Guiana em 1978. Jim, em seus sermões sempre se mostrava lúcido, pacífico e honrado. E era, pelo menos, ele acreditava peremptoriamente nisso. Ele, assim como tantos, provam que nenhum mal é feito com tamanha convicção e sem culpa, quanto aquele que é feito em nome de Deus.

Só existem dois tipos de pessoas no mundo: as boas e as más, e elas estão em todos os seguimentos da existência, ocupando cargos de poder. A grande verdade em tudo isso é a seguinte: quem é corruptível sempre será; quem não é corruptível jamais será, ainda que conviva diariamente com corruptos e corruptores. Na natureza humana, que é racional e consciente, não existe essa de que basta uma laranja podre para apodrecer todas as laranjas da fruteira. Claro, não somos laranjas. Somos bons ou maus, independentemente de termos ou não poder, sucesso e/ou dinheiro.

É certo que a abordagem neste artigo foi direta aos corruptos e corruptores de todos os seguimentos que regem o planeta. Entretanto, as análises psicossociais e fenomenologistas de um indivíduo não são tão simplista nessa balança entre ser bom ou mal: a prostituição e o  tráfico de drogas, por exemplo, não são meras opções errôneas num lugar onde as únicas opções de subsistir é traficar e/ou prostituir. Mas essas coisas só acontecem, também, por culpa dos corruptos e corruptores.

Este artigo foi organizado pela escritora, psicopedagoga e psicanalista Clara Dawn. É proibida a reprodução parcial, ou total, sem sua prévia autorização.(Lei Nº 9.610 de 19 de fevereiro de 1998).

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Clara Dawn
Clara Dawn é romancista, psicopedagoga, psicanalista, pesquisadora e palestrante com o tema: "A mente na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência". É autora de 7 livros publicados, dentre eles, o romance "O Cortador de Hóstias", obra que tem como tema principal a pedofilia. Clara Dawn inclina sua narrativa à temas de relevância social. O racismo, a discriminação, a pedofilia, os conflitos existenciais e os emocionais estão sempre enlaçados em sua peculiar verve poética. Você encontra textos de Clara Dawn em claradawn.com; portalraizes.com Seus livros não são vendidos em livrarias. Pedidos pelo email: escritoraclaradawn@gmail.com