O amor excessivo dos pais – por Fabrício Carpinejar

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por Fabrício Carpinejar

Uma das lições mais ásperas e ingratas da paternidade e da maternidade é não amar o filho mais do que a si mesmo.

Deve-se lutar contra o excesso de amor, para que ele não sufoque e passe dos limites, para que não induza a um engano da sobreposição de sentimentos.

Porque é natural, sendo pai e mãe, sendo responsável, colocar o filho acima das vontades e se deixar por último, para atender primeiro àquele que depende da proteção.

Só que exclusividade não é cuidado, é anulação da personalidade. A fórmula não tem como funcionar, apesar das sinceras e boas intenções. Depois que se vive pelo outro, não há mais como saber viver sozinho.

O ninho fica em cima de uma árvore, portanto a prioridade é a árvore. Perigoso um tronco que não se sustenta: quebradiço, fraco, de raízes rasas.

Os pais necessitam de conteúdo emocional independente, de ocupações e desejos além da sua prole, para não tomar os sonhos emprestados. Que tenham os seus problemas, as suas preocupações, as suas dúvidas, os seus objetivos, a sua privacidade, as suas neuroses, as suas soluções.

Quando colocam na cabeça que são capazes de fazer qualquer coisa pelos filhos, estão agindo de modo errado por motivos nobres. Indicam que a realidade deles não possui valor algum. Pelo voluntário sacrifício, dão o exemplo de que não gozam de importância nenhuma.

Acabam, sem querer, inspirando o filho a não se valorizar. Os efeitos colaterais do zelo excessivo (e da consequente falta de estima) é infantilizá-lo para sempre. Mesmo adulto, ele é enxergado como uma criança indefesa e inadequada para os desafios da responsabilidade. O rebento não evolui emocionalmente, permanecendo como única fonte de alegria. Assim como também não é permitido que sofra, fazendo-o perder o protagonismo das cicatrizes e adversidade. Ele adoece para o convívio, sem obter a contrapartida da sabedoria e os anticorpos das desilusões.

Viver para os filhos já é preocupante. Viver pelos filhos é completamente assustador. Pois não existe discrepância entre o que é externo e interno, entre a prevenção e a fobia. Tudo é sentido embaralhado, como se fosse na própria pele.

Os conselhos ficam intoxicados pelo medo de que algo de ruim aconteça, e nem os pais e nem os filhos têm tranquilidade para cumprir as suas individualidades.

A herança que se pode passar adiante é amar o filho tanto quanto a si mesmo.

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Texto de Fabrício Carpinejar

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