O que o livro Pollyanna, escrito em 1913 tem a nos dizer sobre ressignificar

Juliana Santelli

Um dos melhores livros que li ainda adolescente, foi Pollyanna. A primeira edição é de 1913 e a segunda é de 1915, da romancista estadunidense *Eleanor H. Porter.  Algumas adaptações do livro foram feitas para o cinema: uma em 1960 dirigida por David Swift e distribuída pela Walt Disney; outra pela BBC em 1973, que conta com duas partes de quase 3 horas cada, e também a adaptação musical chamada Polly, de 1989, cujo elenco foi afro-americano.

A mais recente adaptação de Pollyanna, é a telenovela veiculada no Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) e teve início em maio de 2018. Criação de Iris Abravanel, dirigida por Reynaldo Boury e protagonizada por Sophia Valverde, é a segunda adaptação da mesma obra para a TV, no Brasil. Nos anos de 1956/1957, a Rede Tupi exibiu a primeira versão, e foi considerada a primeira novela infantil do país.

O livro Pollyanna não me prendeu de primeira, preciso confessar. No entanto, mal sabia eu que aquele não era um enredo para me fisgar, digamos, com algum tipo de feitiço literário ou que me faria viajar para mundos inimagináveis na primeira página. Não mesmo.

Assim como outras grandes obras da literatura, Pollyanna exige de seus leitores uma distância do ato da leitura, para que compreendam a mensagem que a pequena órfã traz consigo. Sim. Estou falando do secular jogo do contente. A primeira vista, parece algo tanto quanto bobo ou até uma estratégia pensada por parte da autora para vender seu peixe. No entanto, se a gente traz esse exercício para a vida real, percebemos que ele de fato funciona.

O jogo do contente, consiste em a criatura ser grata pelo que tem, ou por não precisar daquilo que deseja, pois há diferença entre um, e outro. Trocando em miúdos, é a pessoa reconhecer que o que ela tem, é o suficiente para si, e que o resto, é vaidade. Imagine você, que Pollyanna aprendeu isso de uma maneira bastante dolorosa. A garotinha pediu uma boneca de presente de natal e, como prenda, recebeu um par de muletas.

O pai de Pollyanna, um pastor de ovelhas viúvo, que já havia perdido mais de 10 filhos e que estava lançado à própria sorte, durante sua estadia neste mundo, pediu para que a menina não se chateasse com o que tinha ganhado. Ao invés disso, fosse agradecida por não necessitar do par de muletas e disse-lhe que fazendo isso, a vida dela seria mais feliz. Logo, ela não reclamaria por qualquer coisa e conseguiria enxergar o sofrimento alheio.

Eleanor não sabe, mas sua criação fictícia ajudou-me num momento delicado de minha vida. No final de 2015 fiz uma cirurgia nos pés e a recuperação me condicionou a uma cadeira de rodas por longos quase 8 meses. Diante dessa situação, qual foi minha atitude? Sim. Jogar o jogo de Pollyanna. Esforcei-me para ser grata pela chance de já ter tido a oportunidade de andar e por saber que mais cedo ou mais tarde eu voltaria às minhas atividades. Não é nem um grande feito de minha parte, contudo, foi um ponto de apoio para que eu não me tornasse um ser tão melancólico naquele período.

O que encanta em Pollyanna e nos livros em geral, é isso, suas lições não vencem. Elas atravessam décadas e a cada revisita às páginas, pode surgir mais aprendizados e novas reflexões à cerca de como estamos nos comportando perante a nossa própria estadia na Terra.

Texto de Juliana Santelli, estudante de jornalismo, colunista do Portal Raízes

*Eleanor H. Porter (1868-1920) alcançou grande sucesso com os romances centrados na personagem Pollyanna. Autora brilhante, tentou a princípio a carreira de cantora, tendo estudado no conservatório musical de New England, Boston. Foi só mais tarde que enveredou pela literatura, inicialmente com obras infanto-juvenis publicadas em revistas e jornais e depois com romances adultos. Sua lápide, no cemitério Mount Auburn, em Cambridge, Massachusetts, traz a inscrição: “Quem, por seus escritos, trouxe luz para a vida de milhões”. O livro Pollyana está à venda na Amazon

 

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Juliana Santelli
Juliana com J de jasmim, estudante de jornalismo na PUC-GO, que não veio ao mundo a passeio e que enxerga a vida por ângulos nada convencionais. Na falta de algo interessante para dizer, digo aquilo que acredito: os sonhos são como passarinhos: se não os alimentamos, eles voam.