“A audição de vozes é uma manifestação da existência, que deve ser acolhida e qualificada, com apoio, amor, segurança, respeito e empatia, a partir do denominador comum: a experiência de ouvir vozes. As vozes podem ser uma, duas, ou dezenas. Podem ser conhecidas ou não. Podem ter gênero, entonação e idade. Podem falar em uma língua, em outras e até em línguas desconhecidas. Podem aparecer uma vez, ou 24h por dia.

Podem vir de dentro da cabeça, de outras partes do corpo, ou de fora dele. Podem vir de outras pessoas, ou da televisão. Elas podem ser boas, conselheiras, protetoras, guias. Ou podem ser más, cruéis e impositivas. Podem coexistir vozes más e vozes protetoras. Podem coexistir vozes e visões. Podem coexistir vozes, visões e sensações corporais.
As explicações podem ser místicas, religiosas, patológicas, psicológicas, culturais e singulares. Tudo isso pra dizer que as experiências são diversas, imensas e potentes.
Podem transformar a vida de quem ouve, de quem está a sua volta e até do mundo. O que um ouvidor de vozes espera é respeito, aceitação, despatologização e autonomia”, escreveu Loraine Oltmann em sua página no Facebook.

Ouvir vozes: espiritualidade ou loucura?

Os cientistas identificaram algumas características que podem tornar uma pessoa mais propensa a afirmar que ouve vozes de mortos. As experiências de clarividência e clariaudiência  – que são as experiências dos que dizem ver e/ou ouvir os espíritos dos mortos – são de grande interesse científico, tanto para antropólogos que estudam experiências religiosas e espirituais, quanto para cientistas que estudam experiências alucinatórias patológicas. A descoberta pode ajudar a entender melhor as alucinações auditivas que acompanham fenômenos mentais como a esquizofrenia, dizem os pesquisadores.

No estudo, os pesquisadores focaram em entender por que algumas pessoas com experiências auditivas relatam que é uma experiência espiritual, enquanto outras pessoas as recebem como um diagnóstico de doença mental.

“Os espíritas tendem a relatar experiências auditivas incomuns, começam ainda na infância e que, na maioria das vezes, são capazes de controlá-las”, explicou o psicólogo Peter Moseley, da Northumbria University, no Reino Unido.

De acordo com ele, entender isso é importante para saber mais sobre as “experiências angustiantes ou não controláveis ​​de ouvir vozes”. Ele e seu colega psicólogo Adam Powell, da Durham University, no Reino Unido, recrutaram e pesquisaram 65 médiuns clariaudientes da União Nacional dos Espíritas do Reino Unido e 143 membros da população em geral recrutados através de uma rede social, para determinar o que diferenciava os espíritas do público que não ouvi vozes de mortos, mas poderia ser um transtorno mental.

No geral, 44,6% dos espíritas relataram ouvir vozes diariamente e 79% disseram que as experiências faziam parte de suas vidas diárias. Por mais que a maioria tenha relatado ouvir as vozes dentro de suas cabeças, 31,7% relataram que as vozes também eram externas.

Ouvir as vozes dos mortos é mais aceitável socialmente do que simplesmente ouvir vozes

Os espíritas relataram uma crença muito maior no paranormal, ou seja que as vozes que eles escutam são dos mortos, e eles também se mostram menos propensos a se importar com o que as outras pessoas pensam deles. Já os voluntários da população em geral demonstram sofrer muito com a percepção e os supostos julgamentos das pessoas sobre o estado mental em que se encontram.

Isso sugere que culturalmente a sociedade está mais disposta a compreender e aceitar a ideia de que os mortos podem se comunicar com os vivos, do que aceitarem que ouvir vozes seja apenas mais um aspecto do ser humano: não um defeito a ser corrigido e sim, um traço a ser aceito.

Os pesquisadores comentaram que é improvável que a experiência dos espíritas de ‘escutar vozes” sugestionabilidade devido à crença no espiritismo por já estar inserido socialmente nele. Mesmo porque a maioria dessas pessoas só buscaram o espiritismo depois de tentar várias respostas, em outros caminhos, para suas experiências em ouvir vozes.

Dos resultados da pesquisa

Os pesquisadores descobriram que os espiritualistas que relatam ouvir as vozes dos mortos, têm ferramentas psíquicas extraordinárias para a absorção, o que é uma característica ligada à imersão em atividades mentais ou imaginativas ou à experiência de estados alterados de consciência. As vozes são reais para os ouvidores. Isto é certo e deve ser respeitado. De onde elas vêm, talvez jamais se consiga provar.

“Nossas descobertas dizem muito sobre o ‘aprendizado da aceitação do que é atípico. Para os nossos participantes, o espiritismo parece dar sentido ás experiências extraordinárias que eles vivenciaram desde a infância e aos fenômenos auditivos frequentes que eles aceitam e se permitem experimentar como prática mediúnica”, disse Powell.

Para as pesquisas futuras, a equipe de pesquisadores querem explorar uma variedade de contextos culturais para entender melhor a relação entre absorção, crença, experiência com audição de vozes.  Conheça o extraordinário movimento dos ouvidores de vozes, aqui.

Da redação de Portal Raízes. Editado a partir da pesquisa publicada na revista Mental Health, Religion and Culture . A pesquisa faz parte do Hearing the Voice – um estudo interdisciplinar sobre a audição da voz baseado na Durham University e financiado pelo Wellcome Trust. As informações contidas neste artigo são apenas para fins informativos. Se você gostou, curta, compartilhe com os amigos, e não se esqueça de comentar. Pois isto contribui para que continuemos trazendo conteúdos incríveis para você. Siga o Portal Raízes também no FacebookYoutube e Instagram.

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