Os brasileiros nunca pesquisaram tanto na internet sobre ansiedade quanto durante a pandemia do novo coronavírus, revela levantamento do Google feito a pedido do Correio Brasiliense. Entre janeiro e julho, o interesse de busca pelo tema foi 191% maior que a média observada entre 2004 e 2019, segundo dados do Google Trends. O pico de pesquisas ocorreu em junho, quando o país ultrapassou a marca de 1,4 milhão de casos de covid-19 e a taxa de desemprego cresceu 26%.

A busca por perguntas contendo a expressão “ansiedade” também teve um aumento expressivo. Pesquisas com a frase “como é ter crise de ansiedade” cresceram mais de 5.000% entre janeiro e julho de 2020 em comparação aos setes meses anteriores. Outras frases muito buscadas foram “como saber se você tem ansiedade” e “como é a falta de ar causada pela ansiedade”, entre outras.

Conforme demonstra uma pesquisa realizada pela Universidade de San Diego em pareceria com a Universidade Johns Hopkins, ambas nos Estados Unidos, esse fenômeno está diretamente ligado à pandemia, que elevou os níveis de ansiedade: “As pesquisas por ansiedade e ataques de pânico foram as mais altas que já ocorreram em mais de 16 anos de dados de pesquisa históricos”, conta, em comunicado à imprensa, Benjamin Althouse, cientista-chefe do Institute for Disease Modeling e um dos autores do estudo, publicado este mês na revista especializada Jama Internal Medicine.

Afinal, o que é ansiedade?

A American Psychological Association (APA) define ansiedade como “uma emoção caracterizada por sentimentos de tensão, pensamentos preocupados e mudanças físicas como aumento da pressão arterial”. Algumas pessoas vivenciam esta reação de forma mais frequente e intensa, que pode ser considerada patológica e comprometer a saúde integral. Saber a diferença entre sentimentos normais de ansiedade e um transtorno de ansiedade que requer atenção médica pode ajudar uma pessoa a identificar e tratar a doença.

41% dos brasileiros estão ansiosos 

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, em 16 países, o Brasil é o que mais tem pessoas que sofrem com ansiedade por causa da pandemia (41%). O segundo lugar é ocupado pelo México (35%) e o terceiro lugar pela Rússia (32%). Os respondentes disseram que os principais motivos que causam a ansiedade são a preocupação com o uso de máscaras, a higienização correta das mãos e dos objetos, a insônia, ter que sair de casa conquanto a curva ainda seja crescente, e o medo do futuro. A pesquisa mostra ainda que 68% dos brasileiros estão com receio de voltar ás aulas e ao trabalho.

Quais são os limites entre a ansiedade normal e a ansiedade patológica?

A psicanalista, psicopedagoga e pesquisadora Clara Dawn, faz as seguintes observações sobre os tipos de ansiedade, os sintomas, as diferenças entre uma crise de ansiedade e um infarto e como controlar e tratar a ansiedade. Confira:

A ansiedade normal é aquela sensação que ocorre com um motivo evidente: a vida cotidiana, especialmente nesses tempos de Síndrome do Pensamento Acerelado, onde o meio em si, a a rotina em si, o trabalho, a convivência com o outro, ou um problema inesperado acontece.  Essa ansiedade geralmente se passa mais na esfera psíquica que na corporal. E pode até ser considerada boa, pois ela nos livra dos ostracismo físico e da inercia psicológica. Nos alavanca a projetar, criar, avançar, resolver, lutar… Quando uma pessoa enfrenta gatilhos potencialmente prejudiciais ou preocupantes, os sentimentos de ansiedade não são apenas normais, mas necessários para a sobrevivência.  Outrossim, a ansiedade normal não chega a comprometer as atividades e funções fisiológicas do indivíduo, o que pode acontecer quando se desenvolve a ansiedade patológica.

A ansiedade anormal é multifacetada e traz consigo desconfortos tão particulares que só mesmo quem o sente pode dizer o quanto são ruins. A ansiedade patológica parece imotivada: ocorre sem nenhum estímulo aparente, entretanto é mais fácil descrever os sintomas, pois estes, que surgem de um sofrimento psíquico, se apresentam na saúde física, provocando:

Sensação de aperto no peito; suor; tremor; fala com gagueira; “respiração curta”; fala entrecortada ou ausente; tensão muscular excessiva; vermelhidão na face; medos exagerados; perfeccionismo; alteração do sono; medos irracionais; autoconsciência exagerada acerca de sua realidade; lembranças ruins; insônia; roer unhas e dores inespecíficas.  Três medos são praticamente constantes na ansiedade patológica, nenhum dos quais em geral se concretiza: Medo da loucura, de optar pelo autoextermínio e/ou de estar com alguma doença grave.

Muitos confundem os sintomas da ansiedade com os da depressão, mas ansiedade e depressão são a mesma coisa. São distintas, tanto nas suas causas como em suas manifestações clínicas e no seu tratamento.

Quais são os tipos de ansiedade?

As formas clínicas de apresentação da ansiedade, são:

  • Ansiedade generalizada: O transtorno de ansiedade generalizada pode ocorrer em qualquer idade. A condição tem sintomas semelhantes aos da síndrome do pânico, do transtorno obsessivo-compulsivo e de outros tipos de ansiedade. Esses sintomas incluem preocupação constante, agitação e dificuldade de concentração. Se a pessoa não conseguir se livrar da ansiedade generalizada com atividades físicas, artísticas, ou outras alternativas naturais, precisará da ajuda de um psiquiatra que poderá indicar escuta terapêutica e medicamentos.
  • Ansiedade social: Para as pessoas com transtorno de ansiedade social, as interações sociais cotidianas causam ansiedade irracional, medo, autoconsciência e constrangimento. Os sintomas são medo excessivo de situações em que a pessoa possa ser julgada, preocupação com constrangimento ou humilhação ou receio de estar ofendendo alguém. Psicodrama terapia, musicoterapia ou a arteterapia podem ajudar a aumentar a confiança e melhorar a capacidade de interagir com os outros..
  • Transtorno de ansiedade: De acordo com o DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais) os transtornos de ansiedade incluem transtornos que compartilham características de medo e ansiedade excessivos e perturbações comportamentais relacionadas. Assim, medo é a resposta emocional a ameaça iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de ameaça futura. O medo é com mais frequência associado a períodos de excitabilidade aumentada, necessária para luta ou fuga, pensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga. O transtorno de ansiedade está diretamente relacionado com outras síndromes psiquiátricas, fobias, estresse excessivo, transtorno obsessivo compulsivo etc. A pessoa com transtorno de ansiedade não consegue viver em paz com as outras e nem consigo mesma.
  • Crises de ansiedade: Se de vez em quando tiver uma crise de ansiedade, é provável que ela surja após algum evento traumático agudo. Mas as crises sucessivas de ansiedade, são momentos em que os sintomas da ansiedade se manifestam de forma abrupta e intensa, e são caracterizados principalmente por taquicardia, respiração irregular, medo e tremores no corpo. Na maioria das vezes, quem sofre de crises de ansiedade já possui um histórico de ansiedade generalizada ou de síndrome do pânico, resultando no descontrole das emoções e da respiração diante de alguma situação de estresse ou trauma.
  • Ataques de ansiedade: O ataque de ansiedade é um dos sintomas mais característicos do Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). O ataque de ansiedade, ou crise de ansiedade, é uma reação emocional extrema de pânico e nervosismo. Geralmente, está relacionado com momentos estressantes, traumas ou de medo extremo. Mesmo quem não tem o transtorno de ansiedade pode ter um ataque em circunstâncias extremas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país mais ansioso do mundo. Cerca de 18 milhões de brasileiros convivem com o transtorno de ansiedade. É provável que muitos deles tenham experimentado uma crise pelo menos uma vez na vida. Porém, ainda existe tabu em relação ao diagnóstico e aos medicamentos para o tratamento. O ataque de ansiedade é um indicativo grave da ansiedade crônica, portanto, é imprescindível procurar ajuda após a primeira experiência. Caso contrário, o quadro clínico pode se agravar e originar outros transtornos relacionados à ansiedade ou depressão.

Como diferenciar crise de ansiedade do infarto?

O ataque cardíaco acontece quando as artérias que irrigam o coração sofrem algum problema, como o entupimento, e são impedidas de levar sangue até o músculo, que começa a morrer. A dor intensa no tórax é consequência dessa ação. Essa pressão forte no peito desencadeia, logo em seguida, dores nos ombros, nos braços, no queixo e no abdômen. A sensação se diferencia dos ataques de pânico no sentido de ser uma pressão mais profunda e associada a outras dores físicas. Além disso, é possível que essa dor se estenda por até 20 minutos.

Como controlar a crise de ansiedade?

Para quem passa por ataques constantes ou convive com pessoas que têm episódios de crise, é fundamental conhecer formas de aliviar os sintomas para se acalmar. Como a situação é assustadora, o termo que precisa ser considerado imediatamente é ‘se obrigar’ a fazer algo por mesmo:

1. Se obrigue a se desviar dos sintomas: a dor no peito começa a parecer como um infarto e isso vai gerando ainda mais medo, acelerando o coração e aumentando o impacto. É fundamental desviar a atenção dos sintomas e focar em uma atividade específica, como o controle da respiração.

2. Se obrigue a respirar corretamente: segure a respiração por três segundos e expire pela boca lentamente. Você deve sentir o abdômen subindo e descendo. Mantenha esse ritmo de respiração até sentir relaxamento muscular e clareza de pensamento.

3. Se obrigue a relaxar os músculos: a contração muscular traz mais dores e desconforto, intensificando a sensação de aperto no coração. Depois que a respiração estiver controlada, procure iniciar o processo de relaxamento muscular. Volte a sua atenção para os músculos, relaxando um por vez a partir da expiração. Comece com a cabeça e o pescoço e passe para as áreas mais afetadas pelo estresse, como o maxilar, boca, nuca e ombros.

4. Se obrigue a distrair sua mente: se estiver sozinho se obrigue contar de 1 a 10 repetidas vezes em voz alta, ou cante uma música, conte uma história , faça uma listas de livros, de compras, de pensamentos… É importante compreender que você precisa se obrigar a executar  uma atividade mental, para que se distanciar do problemas.

5. Se obrigue a usar e abusar das artes: música, poesia, dança, pintura, canto e etc: as artes não podem curar nossas dores psíquicas, emocionais e físicas, mas elas nos transporta para um lugar onde não há sofrimentos, nem dores.

Como tratar a ansiedade?

Se você tem observado os sintomas e acredita que está tendo crises graves de ansiedade, procure ajuda especializada. Procure um psicólogo. Somente o psicólogo poderá, mediante psicoterapia, dizer se você está ou não com ansiedade patológica ou outro transtorno mental. Se o psicólogo considerar necessário a interferência de um psiquiatra, ele vai lhe encaminhar para um e tão somente o psiquiatra poderá lhe receitar remédios antidepressivos.

Fazer nada, é a pior coisa que você pode fazer por si mesmo. Faça análise, terapia, meditação e o escambau, mas faça alguma coisa. As pessoas vão dizer que você piorou muito depois que começou a fazer análise. Sim, porque a análise não é para que você fique ‘melhor’ para os outros. É para que você fique melhor para si mesmo. Ainda que isso, muitas vezes, signifique ficar ‘pior’ para os outros.

RECOMENDAMOS






As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.