“Na época em que eu e minha família contraímos covid-19, em fevereiro do ano passado, tomar a primeira dose da vacina na nossa faixa etária sequer era uma possibilidade no Brasil. Meus sintomas foram pesados e quase fui internada. As crianças, por outro lado, pareciam ter desenvolvido sintomas mais leves, que logo passaram.

O que nós não imaginávamos era que meu filho, Chico, que na época estava com 6 anos, desenvolveria uma complicação rara em função da covid. Semanas depois de nos recuperarmos, ele teve febre persistente baixa, manchas na pele e precisou ser internado em uma unidade de terapia semi-intensiva, diagnosticado com uma síndrome inflamatória grave, que atinge o coração. Graças aos médicos, meu filho sobreviveu. E levá-lo saudável para tomar a vacina foi um momento de muita emoção para a nossa família.

Nossa experiência com a covid foi traumatizante. Vivo com meu marido e dois filhos, Chico, de sete anos e Lola, de quatro. Nossa caçula foi a primeira a manifestar os sintomas causados pelo coronavírus, com um pouco de febre. Logo, eu e meu esposo também fomos diagnosticados com covid-19.

Recebemos o apoio de vizinhos e amigos, que nos traziam alimentos enquanto cumpríamos o período de isolamento. Ainda assim, foi uma fase complicada, principalmente para mim, que passei mal durante muitos dias e não fui internada por pouco.

Chico, nosso filho mais velho, foi o único que só teve um sintoma: dor de cabeça. Em questão de dias ele aparentava estar recuperado. Um mês depois, quando já estávamos bem e não corríamos mais o risco de transmitir o vírus, programamos uma viagem para a praia, a fim de comemorar o aniversário de seis anos dele. Ele brincou no sol e, logo no primeiro dia, ficou queimado.

Então começou a apresentar uma febre baixa, e pensamos que pudesse ser um sintoma de insolação. No dia seguinte, acordou com uma macha na pele, que presumimos ser uma picada de mosquito. Passado dois dias e sem melhora no estado febril, as manchas aumentaram, saíram até no rosto, e decidimos retornar.

Fui direto ao pronto-socorro, e nos disseram que poderia ser uma doença chamada roséola, mais comum em bebês. Voltamos para casa, na expectativa de que ele se recuperasse. Três dias depois, no entanto, ele amanheceu com os olhos inchados e com o mesmo estado febril. Sabendo que poderia ser algo mais grave, preparei uma mala de roupas e retornamos ao médico.

Lá, após uma nova bateria de exames, a desconfiança era de uma doença chamada Kawasaki, que causa sintomas semelhantes ao que ele apresentava. No entanto, fomos encaminhados para outra unidade do hospital, a fim de que um médico especializado o avaliasse.

Em um ano de pandemia, apenas três casos como aquele tinham sido vistos no hospital” Carolina em passeio de máscara com os filhos Imagem: Acervo pessoal Ao ser avaliado por esse médico, chegamos, finalmente, ao diagnóstico correto: MIS-C [do inglês, Multisystem Inflammatory Syndrome in Children], uma síndrome infamatória multissistêmica que atinge crianças e adolescentes pós covid-19.

Em toda a rede do hospital onde estávamos, era apenas o terceiro caso já visto. Algumas pesquisas internacionais estavam sendo desenvolvidas sobre o assunto, mas ainda não se sabia tudo sobre a doença. Prova disso é que alguns dos sintomas esperados, como febre alta e irritabilidade, não se manifestaram no Chico.

Em compensação outros, como manchas na pele e boca ressacada, sim. Foi questão de horas até que ele fosse internado em uma unidade de terapia semi-intensiva e começasse a receber medicações na veia, além de uma transfusão de imunoglobulina.
Para driblar o incômodo dos três dias que passamos lá, ensinamos ele a perguntar às enfermeiras o que elas iriam fazer, para não ser pego de surpresa durante os procedimentos. Com isso, Chico foi valente, quase não deu trabalho e encarou bem a internação. “Por causa da doença, ele precisará fazer acompanhamento cardiológico pelo resto da vida” Quando tudo passou, retornamos para casa e nos demos conta do risco que corremos. Vimos um vídeo de uma médica brasileira contando que havia perdido uma paciente de 9 anos, por falta de informações sobre aquela condição.

Minha prima, cardiologista, tentou me tranquilizar no momento do diagnóstico, mas depois confessou que ficou extremamente nervosa ao saber o que ele tinha. Sem a assistência correta, meu filho teria perdido a vida. O principal risco desta complicação pós-covid é acometer o funcionamento das artérias. Tivemos o privilégio de sermos atendidos em um hospital particular, com médicos que entraram em contato com equipes de estudo do exterior para se informar sobre o tratamento e com isso revertemos o quadro. Hoje, o Chico faz parte de um grupo de pessoas que deve fazer um acompanhamento periódico da saúde cardíaca, além de manter um estilo de vida saudável pelo resto da vida, para não correr o risco de desenvolver novas doenças.

Os médicos foram sinceros: eles não sabem o que pode acontecer com meu filho caso ele seja contaminado com o vírus da covid-19 novamente. Por isso, desde então vivo ansiosa e costumava brincar que seríamos os primeiros na fila da vacinação. Agora que este momento finalmente chegou, ele ficou com medo da agulha, mas logo percebeu a felicidade da família depois de receber a “picadinha”. Estávamos segurando o choro.

Quem já viveu uma situação do tipo, com uma criança doente, sabe quão forte é a sensação de impotência dos pais. No final, foi uma mistura de alívio com relembrar o filme da pandemia, que foi tão cruel com as nossas crianças. Não sou de discutir nas redes sociais, mas em tudo faço questão de me posicionar. Acho o absurdo dos absurdos quem questiona a eficácia da vacina e, pior ainda, impede as crianças de receber uma proteção que é de direito delas — e que pode salvar as suas vidas”.

Texto de Carolina Armellini, 42 anos, designer de produtos, de São Paulo, extraído da UOL.

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