Algumas pessoas experimentam ruminação, ou uma tendência a “mastigar” excessivamente os problemas. De acordo com um artigo publicado em American Psychological Association, as pessoas que ruminam geralmente têm um histórico de trauma e acreditam que ruminar as ajuda a obter respostas.

A palavra “ruminar” se refere ao processo em que o gado tritura, engole, depois regurgita e mastiga novamente sua comida. Da mesma forma, os ruminadores humanos “mastigam” um problema longamente.

Mas, embora a abordagem possa facilitar a digestão das vacas, ela não faz o mesmo para a saúde mental das pessoas: Ruminar sobre o lado mais sombrio da vida pode alimentar a depressão, disse a psicóloga da Universidade de Yale, Susan Nolen-Hoeksema.

Além disso, a ruminação pode prejudicar o pensamento e a resolução de problemas e afastar o apoio social crítico, disse ela. As pessoas também podem se apegar ao passado por outras razões. Por exemplo, eles podem ansiar por experiências positivas que já acabaram ou remoer eventos passados ​​por causa de um desejo inconsciente de evitar ser magoado no futuro.

Começa como um hábito negativo, uma mania ruim, mas quando não autoanalisada de forma critica, pode se transformar até mesmo em um traço da personalidade de alguém. E a ruminação realmente dificulta a resolução de problemas, impedindo assim que as pessoas avancem.

Os ruminadores têm um problema para cada solução

Em um trabalho publicado no Journal of Personality and Social Psychology, Nolen-Hoeksema e Christopher Davis, descobriram que, embora os ruminadores relatem buscar mais a ajuda dos outros do que os não ruminadores, eles recebem menos. Na verdade, muitos deles relatam muitos atritos em receber conselhos: “coisas como, pessoas dizendo para eles se animarem e seguirem com suas vidas”, disse Nolen-Hoeksema.

As pessoas podem responder a um ruminador com empatia e compaixão no início, mas sua paciência pode se esgotar se a ruminação persistir.

“Depois de um tempo as pessoas ficam frustradas e começam a se afastar, o que é claro, faz o ruminador, ruminar mais ainda: ‘Por que eles estão me abandonando, por que eles estão sendo tão críticos comigo?'”, disse Nolen-Hoeksema.

A ligação ruminação-depressão

A ruminação é também um sintoma comum em quadros de depressão, de transtorno obsessivo-compulsivo, de transtorno de ansiedade generalizada e de transtorno de estresse pós-traumático.

Numerosos estudos longitudinais apontam para os efeitos negativos da ruminação: por exemplo, a pesquisa de Nolen-Hoeksema, feita com sobreviventes do terremoto de São Francisco em 1989, descobriu que aqueles que se identificaram como ruminadores, mostraram mais sintomas de depressão e transtorno de estresse pós-traumático.

Outro estudo realizado com Judith Parker e Louise Parker, descobriu que a ruminação previa depressão maior entre 455 jovens de 18 a 84 anos que perderam membros da família para doenças terminais. Aqueles que ruminaram com mais frequência ficaram deprimidos e permaneceram deprimidos nos acompanhamentos até 18 meses depois.

Muitos ruminadores permanecem em sua rotina depressiva porque sua perspectiva negativa prejudica sua capacidade de resolver problemas, disse Nolen-Hoeksema. De acordo com sua pesquisa, eles muitas vezes lutam para encontrar boas soluções para problemas hipotéticos. Por exemplo, se um amigo os está evitando, eles podem dizer: “Bem, acho que vou evitá-los também”.

Além disso, os ruminadores expressam pouca confiança em suas soluções e muitas vezes não conseguem colocá-las em prática – por exemplo, deixar de participar de um grupo de apoio ao luto, disse Nolen-Hoeksema.

“Mesmo quando uma pessoa propensa à ruminação apresenta uma solução potencial para um problema significativo, a própria ruminação pode induzi-la a um nível de incerteza e imobilização que dificulta o avanço”, disse ela.

Por que as pessoas ruminam

Essa ruminação depressiva ocorre mais frequentemente em mulheres como uma reação à tristeza, de acordo com a pesquisa Nolen-Hoeksema realizada com Lisa Butler, PhD, da Universidade de Stanford. Os homens, em comparação, concentram-se mais frequentemente em suas emoções quando estão com raiva, em vez de tristes, disse ela.

Gênero à parte, os ruminadores compartilham algumas características comuns. Eles frequentemente:

  • Acreditam que a ruminação vai lhes trazer respostas
  • Têm histórico de traumas, muitas vezes, desde a infância
  • Percebem que enfrentam estressores crônicos e incontroláveis
  • “Exibem características de personalidade como perfeccionismo, neuroticismo (tendência a experimentar emoções negativas) e foco relacional excessivo – uma tendência a supervalorizar tanto seus relacionamentos, como os dos outros e se sacrifica para mantê-los, não importa o custo”, explicou Nolen-Hoeksema.

Como tratar o hábito de ruminar

É difícil desviar os ruminadores depressivos de seus pensamentos negativos, indica a pesquisa de Nolen-Hoeksema. No entanto, distraí-los, orientando-os a pensar, por exemplo, em um avião voando acima, no layout de seu shopping local ou em um ventilador girando lentamente, parece diminuir sua ruminação.

Os estudos descobriram que ruminadores distraídos lembram menos de eventos negativos do que ruminadores não distraídos. A distração também ajuda a mitigar a tendência dos ruminadores de se concentrar nos problemas – e expressar auto-culpa e baixa confiança – ao discutir suas vidas.

Na prática, no momento que se perceber ruminando, as pessoas podem usar técnicas de distração como cantar, contar uma piada, fazer uma meditação, fazer uma pergunta sobre outro assunto ou até mesmo uma oração. Entretanto, o hábito de ruminar precisa ser tratado em processos de escuta terapêutica. A psicoterapia é a luz que se acenderá sobre esse móvel que a pessoa vive tropeçando.

Nota: A psicóloga de Yale, Susan Nolen-Hoeksema, morreu em 2 de janeiro de 2013 no Hospital Yale-New Haven, após uma cirurgia cardíaca associada a uma infecção no sangue. Ela tinha 53 anos. Ela fez pesquisas inovadoras sobre ruminação, a tendência de responder à angústia concentrando-se nas causas e consequências dos problemas sem uma solução ativa de problemas, um fator crítico que prevê problemas de saúde mental. Ela descobriu que a ruminação não só interfere na capacidade das pessoas de resolver problemas, mas também na sua capacidade de obter ajuda dos outros.

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