Qual é finalidade da produção de alimentos? Saciar a fome ou gerar riquezas? Riquezas para quem? O alimento é produzido para qual finalidade? Matar a forme, sim? Mas todo o alimento produzido no mundo vai para quem tem fome ou para quem tem dinheiro?

Segundo a ONU, a fome é o maior problema solucionável do mundo. Entretanto, com a concentração de riquezas nas mãos de uma pequena parcela da população, 870 milhões de pessoas passam fome, segundo a ONU.

No Brasil a cada dia o mapa da extrema pobreza cresce, conforme aponta estudo da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Pessan). Quase 20 milhões de brasileiros afirmam que passam períodos de 24 horas sem ter o que comer. Cerca de metade da população – 116,8 milhões de pessoas – sofre atualmente de algum tipo de insegurança alimentar. “O Brasil continua dividido entre os poucos que comem à vontade e os muitos que só têm vontade de comer”, afirmam pesquisadores da entidade.

De acordo com o “Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil”, a situação vem piorando de forma acelerada. “Em apenas dois anos, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar grave saltou de 10,3 milhões para 19,1 milhões. Nesse período, quase 9 milhões de brasileiros e brasileiras passaram a ter a experiência da fome em seu dia a dia”, aponta o relatório.

Tamanho da fome no Brasil: Brasileiros têm sobrevivido com lavagem e água suja

Fome no Brasil por região. Fonte: Rede Pessan

O levantamento foi realizado em 2.180 domicílios das cinco regiões do Brasil, em áreas rurais e urbanas, de 5 a 24 de dezembro de 2020. Dos 116,8 milhões de pessoas atualmente em situação de insegurança alimentar, 43,4 milhões (20,5% da população) não contam com alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada ou grave) e 19,1 milhões (9% da população) estão passando fome (insegurança alimentar grave). “É um cenário que não deixa dúvidas de que a combinação das crises econômica, política e sanitária provocou uma imensa redução da segurança alimentar em todo o Brasil.”

O número de brasileiros sem acesso a comida é maior do que a população total dos estados da Bahia (15 milhões) ou do Rio de Janeiro (17,5 milhões). Minas Gerais e São Paulo têm mais que 19,1 milhões de habitantes. Este tem sido o retrato de brasileiros que têm sobrevivido com lavagem e água suja.

Uma reportagem da BBC-News mostrou a realidade da comunidade Muvuca, no Vergel do Lago, uma das regiões mais pobres de Maceió, capital de Alagoas, onde os moradores estão se alimentando de comida de porcos e não têm acesso à água limpa: são 6 pessoas para tomar banho com um balde de água.

No ano passado, o auxílio emergencial cobriu 1,2 milhão de pessoas no Estado, com um valor que variava entre R$ 600 e R$ 1,2 mil. No segundo semestre, caiu pela metade e, na parcela mais recente, foi fornecido a 717 mil pessoas no Estado, com valores entre R$ 150 e R$ 370. Durante a pandemia, de acordo com dados do Ministério da Cidadania, Alagoas teve mais 38,6 mil pessoas empurradas à pobreza extrema, sobrevivendo com até R$ 89 por mês. O número total chega a quase 1,2 milhão de pessoas, o que corresponde a 35% da população do Estado.

A fome no Brasil também tem cara e tem cor: mulheres da periferia, chefes de família, negras, com pouco estudo. A pesquisa, feita em 128 municípios, mostra que a pandemia acelerou um processo que o país já estava enfrentando desde 2015. No Norte e Nordeste estão os maiores percentuais de perda de emprego, redução de rendimento familiar e corte de despesas. Quase quase 60% dos entrevistados dessas regiões contam com auxilio emergencial.

Só o auxílio-paletó pago aos parlamentares daria para sustentar 17 mil famílias brasileiras

O auxilio-paletó – benefício pago aos políticos do Congresso Nacional e de 16 assembleias legislativas no Brasil, instituído pela Constituição de 1946 – custa por ano aos cofres públicos R$ 63,1 milhões. Este mesmo valor poderia sustentar, por quatro anos, 17 mil famílias que vivem na extrema pobreza.

No Brasil, os parlamentares têm um salário de R$ 33.763 ( ou 35 vezes o salário mínimo atual), auxílio-moradia de R$ 4.253 ou apartamento de graça para morar, verba de R$ 92 mil para contratar até 25 funcionários, e verba de R$ 30.416,80 a R$ 45.240,67 por mês para gastar com alimentação, aluguel de veículo e escritório, divulgação do mandato e outras despesas.

O valor gasto com o auxílio-paletó no Brasil também supera os 37,8 milhões de reais que eram destinados a 5.613 bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado; benefícios que vem sendo alvo de cortes pelo governo desde o início do ano. Essa é apenas a parte visível dos rendimentos dos políticos brasileiros. Existem muitos adicionais. Eles variam dependendo do cargo e do estado, e podem ser incrementados por novas funções — como a de presidente de uma Câmara Municipal ou do Senado federal. Na prática, garantem que os rendimentos sejam multiplicados várias vezes. Leia mais sobre isso, aqui.

Como doar alimentos a quem precisa?

Diante do atual cenário em que o país vive e com o intuito de minimizar a situação da fome, a Ação da Cidadania lançou a campanha “Brasil Sem Fome”. O objetivo da ONG é fazer doações de cestas básicas para todo o país de forma ininterrupta, principalmente para aquelas regiões onde a logística é mais complicada com a intenção de não deixar nenhuma comunidade ou família desassistida. A Ação da Cidadania foi fundada em 1993 pelo sociólogo Herbert de Souza, conhecido como Betinho, com o intuito de combater a fome e a desigualdade socioeconômica em nosso país e ajudar os mais de 32 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza naquele ano. As doações podem ser feitas através do site exclusivo da campanha: https://www.brasilsemfome.org.br/

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