Naquele momento, não era o Rei, não era Pelé, não era o ídolo, não era unanimidade do futebol, não era um dos homens mais famosos do mundo, era somente o pai. O colo do pai. O cheiro do pai. A pulsação do pai.

A cena de Kely Nascimento aninhada no ombro do Pelé enfermo na cama do hospital Albert Einstein é uma das mais sensíveis desse Natal. Explica qual o sentido de uma família.
Estávamos acostumados a vê-lo dominando regiamente a bola no peito, agora assistíamos a ele de pijama, desarmado, sem pressa, com a filha no peito: vulnerável, frágil, humano, Edson.

Kely mergulhou naquela paz paterna por uns instantes, deixando suas pernas para fora, querendo apenas escutar o batimento cardíaco com o ouvido.
É a vigília do amor, a disponibilidade um tanto tensa, um tanto desesperada de prolongar a vida de quem você ama. Cada minuto importa. Cada detalhe é eterno. Cada olhar é decisivo. Cada gesto é testemunhado com a expectativa de um renascimento.
Os sons do corpo se misturam ao ritmo das máquinas hospitalares num único código braille.

Quem já não teve um parente doente e repetiu exatamente essa coreografia de apego?
Não sabemos ao certo se é saudade antevendo o pior ou gratidão reconhecendo tudo o que já foi dado pelo outro.
Completando o ambiente de solidariedade dos laços, ao fundo da fotografia, aparece Sophia, a neta de Pelé, dormindo no sofá. Trata-se do revezamento de cuidados entre duas gerações.

0A luta é somente ficar mais uma noite junto. E mais uma noite. E não se esquecer de nada do que está sendo vivido ali dentro.

Texto de Fabrício Carpinejar. Confira a versão original abaixo:

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