Fonte: http://consciencia.blog.br/

Natureza humana explica conflito entre “coxinhas” e “petralhas”, diz psicólogo

Os seres humanos são animais muito sociais. Uma das poucas espécies capazes de se congregar em grupos de milhares, a fim de colaborar com um objetivo em comum. Isso é algo natural para nós. O problema é que essa mesma habilidade que nos ajudou a dominar o planeta pode ser sequestrada para o mal. É muito fácil de entender quando tomamos como exemplo o grande experimento social que é o esporte. As pessoas se dividem em grupos, em torcidas diferentes, e a situação pode sair do controle. São pessoas muito parecidas entre si que se envolvem numa disputa por um assunto que não é questão de vida ou morte, que não tem um impacto prático em suas vidas.

Da cooperação para a hostilidade, mesmo quando há objetivos em comum, como o combate à corrupção

A competição entre grupos não é surpreendente. Os psicólogos veem isso acontecer em experimentos o tempo todo. Na psicologia, chama-se de paradigma do grupo mínimo. Os psicólogos levam as pessoas para o laboratório e as dividem em grupos de maneira arbitrária. Eles observam que facilmente os integrantes de um grupo não gostam de quem está no outro. Como não há nenhum critério para agrupar as pessoas, a única razão para que elas não gostem dos integrantes do outro grupo é o fato de pertencerem ao outro agrupamento – não porque existam diferenças.

Animosidade inerente a agrupamentos sociais

O que separa os seres humanos de outras espécies é que nosso cérebro parece programado para a sociabilidade. A região cerebral encarregada dessa habilidade, o lobo frontal, é maior nos seres humanos. Já temos o cérebro maior do que o de outras espécies, mas essa parte é também proporcionalmente maior nos humanos. Essa região processa a moral, o conjunto de valores que determina o que é certo e errado no convívio social. Ela responde por nossos princípios, faz com que nos importemos com os outros. Sem valores, moral e confiança, a sociedade se desintegraria. Diferentemente dos psicopatas, que não conseguem ter empatia e são uma minoria, a maioria sempre tenta fazer o que considera correto. A questão é que violência, ameaças e incivilidade podem ser invocadas como uma maneira de atingir ideais morais. É interessante que os mesmos valores que nos impedem de machucar os outros, que nos fazem nos conectar em grupos possam ser usados para causar danos quando estamos em lados diferentes.

Nesse comportamento de grupo, vale a máxima “os fins justificam os meios”?
Quando vemos atos de violência ocorrer entre grupos, é porque essas pessoas estão tentando fazer o que parece certo para elas. Há pesquisas que sugerem que o terrorismo, por exemplo, não é praticado por psicopatas, mas por pessoas que acreditam estar fazendo o que é certo. Nesse sentido, terroristas são pessoas motivadas pela moral de maneira excessiva.

As vozes que costumam sobressair em confrontos entre grupos parecem ter posições muito extremas, o que dificulta o diálogo e contribui para a polarização da discussão

Os grupos costumam ser representados por integrantes com atitudes mais fortes, com discurso extremista. Há uma correspondência entre ter uma posição extremista e ser percebido como um líder, como um exemplo para o grupo. Isso não acontece em 100% das vezes, mas essa correlação existe. A ausência de um discurso extremo em pessoas consideradas moderadas pode ser entendida como falta de paixão para defender os interesses do grupo. É uma infelicidade que paixão e extremismo tenham de estar juntos. Se aqueles que têm uma postura moderada conseguirem tornar suas posições mais visíveis, podem ajudar a diminuir a separação entre os grupos.

Em tempos de redes sociais como o Facebook, que cria filtros para que as informações que aparecem em nossos perfis venham de pessoas com pensamentos e atitudes semelhantes, as opiniões e posições políticas tendem a ficar mais extremas

Quando os grupos são homogêneos, eles tendem a ficar mais extremos e tomar decisões piores do que quando há mais diversidade de opiniões. Essa tendência é característica do pensamento de grupo e não acontece só nas redes sociais. Nos Estados Unidos, as pessoas vivem em vizinhanças em que os moradores concordam ideologicamente. Um clima extremo acaba prejudicando o debate racional. Não adianta falar para as pessoas o que elas deveriam fazer e como se comportar. Os estudos sugerem que não fazemos o que nos dizem para fazer, mas o que vemos as outras pessoas fazer.

Existe um caminho para reduzir a polarização e fazer com que o clima inflamado se transforme num debate construtivo?

Gostamos de pensar que os seres humanos são criaturas muito racionais e que, por isso, basta ter o argumento correto e ele funcionará. Se fosse simples assim, falar “seja mais civil”, “entenda o outro lado”, seria o suficiente. Mas somos seres emocionais em primeiro lugar. É preciso fazer com que as emoções trabalhem a nosso favor e não contra. A principal recomendação é personalizar as discussões, concentrar-se nos relacionamentos entre os indivíduos. É preciso conhecer quem está do outro lado.  Geralmente, isso ajuda a diminuir a animosidade entre os integrantes do grupo. Mas, para isso, claro, as pessoas têm de querer criar empatia com o outro grupo.

Como é possível conseguir essa aproximação?

Uma medida importante é construir objetivos de cooperação. Em vez de fazer os grupos competir, faça-os cooperar. Se os dois grupos querem um Brasil melhor, é melhor concentrar a discussão no objetivo coletivo e menos em detalhes que suscitam competição de ideias e convicções. Há muitas situações que não são um jogo, em que um lado tem de perder para o outro necessariamente ganhar. Em muitas, os dois lados podem vencer. Quanto mais se conseguir enquadrar as diferenças dentro de situações em que os dois lados ganham – um Brasil melhor, uma economia mais forte, mais empregos –, há mais chances de a cooperação florescer. Para isso, é preciso que a maioria dos que estão no meio, entre os polos extremos de conflito, se envolva. Os moderados costumam ser capazes de olhar os dois lados e apreciam a complexidade. Não se pode delegar essa tarefa para os extremistas.

Trecho de uma entrevista como o psicólogo Ravi Iyer concedida à Revista Época 

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