Rogério Soud

Contos de Cora Coralina são reunidos em obra juvenil

A poesia de Cora Coralina é uma profissão de fé. Graças à sua ternura em manusear as palavras, como se fizesse um doce, ela se transformou em uma das principais poetas da literatura brasileira. A escritora obteve reconhecimento aos 75 anos, quando Carlos Drummond de Andrade começou a elogiar publicamente os versos da vovozinha lírica que nasceu em 20 de agosto de 1889, na Cidade de Goiás.

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nome de batismo da escritora, faleceu aos 96 anos, em 1985. Cora Coralina começou a escrever cedo, aos 14 anos, porém teve o primeiro livro publicado em junho de 1965, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Foi a partir daí que a doceira famosa começou a ser conhecida no mundo da literatura.

Chegará às livrarias no dia 1.º de março o livro “De Medo e Assombração”. Trata-se de uma coletânea de seis contos escritos por Cora Coralina (1889-1985), a poeta doceira da Cidade de Goiás. Cinco deles: (As Capas do Diabo, O Capitão-mor, Medo, O Corpo Delito e Candoca) foram publicados anteriormente em “O Tesouro da Casa Velha”, que já está em sua 6.ª edição. “Procissão das Almas” saiu em ‘Estórias da Casa Velha”, na 14.ª edição. Os dois livros foram lançados pela Global, que apresenta agora a nova antologia. A obra é direcionada ao público infantojuvenil. As ilustrações do livro são de Rogério Soud. Confira um dos contos da antologia:

Medo – Por Cora Coralina

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Viajava uma jardineira, expresso ou perua, como se diz, de Goiânia para Goianópolis. Levava na coberta, entre malas e trouxas, um caixão vazio de defunto, destinado para uma pessoa falecida naquele distrito.

Logo adiante na estrada, um homem parado, dá sinal e a perua para.
Dentro, tudo cheio. O homem que precisava seguir viagem aceitou de viajar na coberta com os volumes e o caixão vazio. Subiu. O tempo tinha se fechado para chuva e logo começou a pingar grosso. O sujeito em cima achou que não seria nada demais ele entrar dentro do caixão e ali se defender da chuva. Pensou e melhor fez. Entrou, espichou bem as pernas, ajeitou a cabeça na almofada que ia dentro, puxou a tampa e, bem confortado, ouvia a chuva cair.

Mais adiante, dois outros esperavam condução. Deram sinal e a perua parou de novo; os homens subiram a escadinha e se acocoraram no alto. Iam conversando e molhados com a chuva fina e insistente.
Passado algum tempo o que ia resguardado escutando a conversa ali em cima levantou devagarinho a tampa do caixão e perguntou de dentro, só isto: “Companheiro, será que a chuva já passou?”. Foi um salto só que os dois embobados fizeram correndo. Um quebrou a perna, o outro partiu braços e costelas e ficaram ambos estatelados do susto e sem fala, na estrada.

(Deixa que eu conto. 1ª Ed. São Paulo: Global, 2003. Coleção Literatura em minha casa, v.2. Conto).

 

 

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