Farricocos de Cristiane Rezende

Cultura Popular: Procissão do Fogaréu na Cidade de Goiás

É meia-noite na Cidade de Goiás, não se ouve mais o triste canto da juriti, “a terra vazia emudece”1 e como num ato de vassalagem ao sempre fiel e obstinado relógio da torre do Rosário, vagarosamente desmaiam-se os bucólicos candeeiros que realçam a “despretensiosidade” e singeleza das pedras, as quais agasalham as ruas e os suspeitos becos de meu torrão querido.

Rufos de tambores rompem o silêncio prevalente na pacata vila, logo depois lampejam tochas na porta da Boa Morte, de onde surgem quarenta homens descalços encapuzados e vestidos em indumentárias de diversas cores, são eles os chamados farricocos, considerados por alguns vilaboenses uma perversa representação dos soldados romanos que perseguiram Cristo.

Ao som da fanfarra dá-se início à Procissão do Fogaréu, que começa em frente ao Museu de Arte Sacra, na Praça do Jardim, e desce em direção à escadaria da Igreja do Rosário, onde os farricocos encontram a mesa da última ceia já dispersa.

Durante a Procissão uma atmosfera de angústia e esperança envolve a multidão que assiste emocionada ao espetáculo, angústia por já saberem o que acontecerá com Jesus Cristo, sofrem juntos com Ele até a crucificação na Sexta-Feira da Paixão, porém também sentem esperança, pois sabem que no Domingo de Páscoa Ele ressuscitará, e sentem a mesma esperança quanto ao Seu indeterminado retorno. São muitos também os que sentem medo durante a realização do evento, quando assisti pela primeira vez, lembro-me de não ter tido medo da escuridão, mas sim receio das tochas e mais ainda dos farricocos, figuras que apavoram sem o menor esforço uma criança.

Tela de Cristiane Rezende 

Uma das partes mais emocionantes é quando os farricocos sobem as escadarias da Igreja São Francisco de Paula que representa o Monte das Oliveiras, e o som do clarim rompe a escuridão da noite, reverbera e é sentidamente murmurado pelo rubro rio. Um farricoco de branco empunha um estandarte com a imagem de Cristo pintada pela Professora Maria Veiga Jardim, que achou melhor substituir a de Veiga Valle pela sua para a original não sofrer grandes danos.

Depois da fala do Bispo de Goiás e terminada a prisão de Cristo, a Procissão retorna à Praça do Jardim, seu ponto inicial. Sob aplausos a Procissão do Fogaréu é encerrada. Acendem-se os lampiões e a Cidade de Goiás acorda das trevas. A Procissão do Fogaréu tem suas origens nos países ibéricos, de onde fora trazida em 1745 pelo padre espanhol João Perestrello de Vasconcelos Spínola, segundo relatos de pessoas mais antigas, somente os homens podiam participar.

Durante décadas a Procissão do Fogaréu ficou sem ser realizada na Cidade de Goiás, muito já havia se perdido no tempo. Até que em 1965 foi fundada a Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT), e em 1966 com o apoio da OVAT, a Procissão do Fogaréu voltou a ser realizada na Cidade de Goiás com incentivo e apoio de diversas pessoas, entre elas destaco Elder Camargo de Passos, Antônio Carlos Bastos Costa Campos, Hecival Alves de Castro, Antolinda Baía Borges, Goiandira Aires do Couto, Humberto do Nascimento Andrade, as irmãs Joíza e Joíce Pereira de Oliveira e diversas outras pessoas de bem que direta ou indiretamente ajudaram a resgatar a tradição da realização da Procissão do Fogaréu.

Segundo relatos de Elder Camargo de Passos, o resgate da Procissão do Fogaréu, além de preservar a cultura local foi visto como uma forma de atração para turistas, como um incentivo a mais para visitarem a Cidade de Goiás e voltarem todos os anos na mesma data, e não é que deu certo!

 Anualmente mais de 10 mil turistas vão à Cidade de Goiás para assistir à Procissão do Fogaréu e demais eventos da Semana Santa, como por exemplo: o Canto do Perdão dos Homens na Igreja D’Abadia, o Canto do Perdão das Mulheres na Igreja São Francisco de Paula, as outras procissões, o canto da Verônica executado pela cantora lírica Anna Rita Ludovico Ferreira da Silva, a encenação da Paixão de Cristo e também o Descerramento da Cruz.

Quem quiser assistir às comemorações da Semana Santa na Cidade de Goiás é melhor reservar logo um quarto em alguma pousada ou hotel da cidade, a rede hoteleira vilaboense é extensa e de ótima qualidade. São diversas pousadas, entre elas cito a do Ipê e Dona Sinhá, ambas muito bem localizadas e cujas dependências são muito confortáveis. Entre os hotéis, indico o Hotel Vila Boa, localizado no Morro Chapéu do Padre, o maior hotel da região, com piscinas para adultos e crianças, assim como sala de jogos e estacionamento. Segundo informações do próprio hotel, depois do carnaval as reservas aumentam e torna-se muito difícil conseguir uma vaga.

Tela de Cristiane Rezende 

A cidade é também bastante concorrida em outras épocas do ano, como nas comemorações do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA) e durante a simbólica solenidade de transferência da capital durante a semana de comemoração do aniversário da Cidade de Goiás.

Em outras épocas do ano, quando a cidade está mais vazia, é bom participar dos saraus que ocorrem na Cafeteria Moinho do Trigo e das serenatas, eles acontecem uma vez por mês durante a lua cheia.

Não se pode ir à Cidade de Goiás e não visitar a Velha Casa da Ponte, hoje Museu Casa de Cora Coralina, o Museu guardou muitos de seus pertences, através deles podemos conhecer um pouco mais da forte personalidade de Aninha.

Reza a lenda que quem beber da água da Fonte da Carioca, sempre retornará à Cidade de Goiás, comigo funcionou.

Para quem quer conhecer um pouco da história política do Estado de Goiás, o velho e majestoso Palácio Conde dos Arcos é o lugar ideal. Ele foi a morada oficial dos governantes goianos até a transferência da capital, hoje além de museu, é também residência de inverno dos governadores e uma vez por ano abriga o Governador de Goiás, como já abordei.

Outros lugares interessantes para se visitar: o Museu das Bandeiras que guarda grande parte da história da exploração bandeirante em Goiás, o Museu de Arte Sacra dá destaque ao escultor Veiga Valle. Entre os monumentos estão o Chafariz de Cauda e a Cruz do Anhanguera. Se o céu estiver limpo, sem ameaças de chuvas, uma trilha ecológica na Serra Dourada não é má opção. Convido você para conhecer “estas coisas dos Reinos de Goiás”², garanto que “se enamorará por esta velha e ao mesmo tempo jovem Vila Boa, depositária de histórias, lendas e tradições”³.

Texto de Yuri Baiocchi.

¹ “a terra vazia emudece” — trecho da música “Rios Vermelho”, do poeta e desembargador Manoel Amorim Félix de Souza.

² “estas coisas dos Reinos de Goiás” — trecho do poema “Coisas do reino da minha cidade”, da poetisa Cora Coralina.

³ “se enamorará por esta velha e ao mesmo tempo jovem Vila Boa, depositária de histórias, lendas e tradições” — trecho de uma prosa do poeta Antônio Carlos Bastos Costa Campos.

(Yuri do Couto Brandão Xavier de Almeida Vieira Rios Baiocchi, mais conhecido como Yuri Baiocchi, tem 15 anos de idade e nasceu em Goiânia – GO a 10 de setembro de 1999. Mesmo sem formação acadêmica, é pesquisador da História de Goiás e possuidor de um dos maiores acervos sacro, genealógico, fotográfico, literário e jornalístico do Estado de Goiás. Estuda com afinco as origens das tradicionais famílias da Cidade de Goiás, Jaraguá, Pirenópolis e Itaberaí, bem como cataloga os poetas goianos do final do século XIX e início do século XX. Recentemente vem tentando esclarecer alguns fatos quanto à fundação da Academia Goiana de Letras. Tem dois livros no prelo, um sobre a vida e obra de seu avô poeta e desembargador Augusto Ferreira Rios, ex-Presidente da AGL, e outro sobre genealogia).

 

Quer participar do evento Procissão do Fogaréu? Veja a programação completa no site da prefeitura da Cidade de Goiás





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