Um amigo fingido é pior do que um inimigo declarado

Os amigos que fazemos na vida, os verdadeiros, os genuínos, os reais, podemos contar nos dedos de uma mão e, ainda assim, sobram dedos. Ao longo da nossa vida aprendemos quem são, de fato, as pessoas que nos amam do jeito como somos, que não exigem nada em troca, que conhecem os nossos defeitos. Ainda assim nos defendem, aplaudem nossos acertos, se solidarizam e, o mais importante de tudo: não têm a menor dúvida em nos advertir quando fazemos algo errado.  

O filósofo Leandro Karnal , ao escrever sobre este tema, disse: “Amizades surgem entre pessoas que se admiram. A estreita relação entre os filósofos Montaigne e Étienne de la Boétie resulta numa das mais belas frases já escritas sobre este tipo de afeto. Nos seus ensaios, o nobre tenta explicar por que amava La Boétie. Só consegue dizer que a causa central era “porque era ele, porque era eu”. O autor dos Ensaios reconhece que, na especificidade absoluta do outro, está a chave da fusão elevada a que chamamos amizade. […] Não existe uma racionalidade que abarque isso. A amizade é uma epifania lenta”. 

Mas, a vida também nos ensina sobre falsidades, máscaras, falsos olhares e sorrisos maledicentes, Nos ensina que nem tudo que brilha é ouro.  Que muitas vezes aquele que pensamos ser um grande amigo, se revela pior do qualquer inimigo que encontramos pelos caminhos da vida. Daí as maiores decepções. É triste perceber quando um amigo nos trai ou nos decepciona com atos que nos machucam profundamente. E, assim, o amigo se revela diferente de quem pensávamos que fosse.

Uma verdade defendida por Lenadro Karnal: “Vaidades e disputas afastam amigos. Alguns afirmam que ex-amigos, de fato, nunca foram amigos de verdade. Há pedras no caminho. Amigos também possuem egos e as circunstâncias, por vezes, sufocam tudo. Desde que se conheceram na Paris ocupada, Sartre e Camus perceberam uma atração afetiva imediata. Já admiravam a obra um do outro. Dois homens diferentes: Sartre, burguês e bem formado; Camus de família pobre e nascido na Argélia. Também havia o fato de que o parisiense se esforçava muito para agradar às mulheres, mas era feio como uma cólica. Camus era bonito, mas sem a lábia retórica do autor de A Náusea. Havia uma admiração recíproca e uma concorrência entre ambos. Sartre apoiou a URSS mais do que Camus gostaria e as conversas foram ficando ácidas. Numa carta endereçada à revista que Sartre dirigia (Les Temps Modernes), ocorreu o afastamento definitivo. Sartre respondeu no mesmo número com um texto muito duro, duvidando até da capacidade de compreensão filosófica do ex-amigo. A trágica morte de Camus impediu uma reaproximação. Sartre escreveu um lindo obituário. A morte vencera o ego”.

Certamente, não podemos chamar qualquer pessoa de amigo. Mas, também não podemos, de imediato, rotular alguém como inimigo. Pelo fato de que em algum momento podemos ser contrariados. Noutros, as pessoas nem sempre agem segundo nossas expectativas. Devemos ser bastante sensatos na hora de decidir se uma pessoa é amiga de verdade. Geralmente agradamos de quem nos adula, que nos faz companhia, que nos suporta, mas não significa que seja amigo de verdade. Porque esse tipo de amigo jamais diz quando estamos errados. Pelo contrário, o falso amigo observa nossos erros para criticar e macular a nossa imagem junto aos demais.

Os inimigos, em outro foco, sempre agem com maior astúcia. Suas intenções são mesquinhas, agressivas e maldosas com a intenção clara de atingir os seus interesses e vencer uma disputa conosco. Qualquer oportunidade será boa para nos fazer perder terreno e nos impedir em tudo que for possível para nos prejudicar. Geralmente, o inimigo se declara como tal e você o identifica nesta condição. Para lidar com o inimigo simplesmente devemos ser mais cautelosos e precavidos. Nos tempos atuais os inimigos não duelam como faziam na idade média. Uma pessoa que gosta de intriga, por exemplo, pode se tornar seu adversário se não se torna cúmplice de seus comentários negativos. Qualquer contrariedade pode gerar inimizades. Isso também faz parte da vida de antagonismos, dualidades e lutas cotidianas.

Sem dúvida, somos propensos a acreditar em quem nos bajula. Confiamos neles, compartilhamos nossos planos, alegrias, tristezas e, até, confessamos nossas fraquezas. Confiamos a eles nossos segredos, pois se tornaram nossos confidentes. De maneira que um amigo fingido tem mais informações sobre a nossa vida. E de maior relevância do que qualquer possível inimigo. Por isso o falso amigo é mais perigoso a você do que o inimigo.

Devemos estar atentos. Os sinais sempre nos indicam que os amigos de verdade manifestam bondade, honestidade e amor. E se interessam por nós da jeito que somos. Mas, devemos ser espertos para aprender a separar o amigo verdadeiro do fingido. E, sobretudo, aceitar que a falsidade existe. Como saber que uma pessoa que se aproxima de nós é um amigo?

Leandro Karnal identificou três regras fundamentais

“A primeira é a capacidade de se observar e continuar em frente. Uma conversa genuína com um amigo é uma dissecação anatômica da minha alma. Nem todos conseguem isso. Não é fácil atender ao preceito socrático: conhece a ti mesmo. Na minha experiência, conhecer aos outros é infinitamente mais fácil do que conhecer a si. Se os filósofos já garantiram que homens maus não possuem amigos, mas apenas cúmplices, eu acrescentaria que pessoas superficiais possuem apenas colegas e conhecidos, mesmo que os denominem amigos”.

A segunda é o tempo. Não se criam amigos de um dia para o outro. Amigos demandam história, repertório de casos, vivências em conjunto. Amigos acompanham nossos sucessos e fracassos amorosos, choram e riem com nossa biografia. Todo amigo é, dialeticamente, um frágil bonsai e frondoso carvalho”.

“A terceira é o controle do próprio orgulho. A mais espaçosa dama da alma é a vaidade. Quando ela preenche o ambiente, sobram poucos assentos livres. Pessoas vaidosas são frágeis e temem a entrega da amizade. O amor é privilégio de maduros, dizia Carlos Drummond. Talvez a amizade também o seja. Talvez não seja apenas para maduros, mas, com certeza, é um privilégio”.   O Portal Raízes completa assim:

Olhe mais longe, decodifique o interior das pessoas e observe sempre. Estas são as nossas melhores defesas. Deu vontade de ligar ao meu amigo. Vou ligar agora.

Publicado originalmente em Rincón do Tibet. Livre tradução e adaptação de Doracino Naves especial para o Portal Raízes

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Doracino Naves
Jornalista, diretor e apresentador do Programa Raízes Jornalismo Cultural.




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