Vozes anoitecidas na gênese de Mia Couto – Por Edival Lourenço

Mia Couto, escritor moçambicano, biólogo, jornalista, ativista engajado nas lutas de independência de seu país e no seu posicionamento no contexto internacional, foi o vencedor do Prêmio Camões 2013, pelo conjunto da obra. Trata-se do prêmio literário mais prestigioso da língua portuguesa. Seu primeiro livro de contos, de 1986, Vozes Anoitecidas, só recentemente lançado por aqui, pela Cia das Letras, é uma ótima oportunidade para o leitor brasileiro conhecer a criatividade do autor em suas primeiras manifestações em prosa.

Em contrario sensu, mas parafraseando Liev Tolstói, na antológica abertura do romance Anna Karenina, pode-se dizer que todos os escritores medíocres se parecem. Já os escritores grandiosos são grandiosos cada qual à sua maneira.

Quando observamos escritores grandiosos e inventivos como Guimarães Rosa, José J. Veiga, José Saramago, António Lobo Antunes, Franz Kafka, Juan Rulfo, Gabriel Garcia Márquez e outros fenômenos das letras universais, percebe-se que eles só se parecem no grau de inventividade imprimido a seus textos, mas o modo da inventividade é algo singular em cada um. E essa singularidade a que me refiro é tão mais instigante na medida em que retoma a tradição literária ao mesmo tempo em que propõe rupturas com certos aspectos da tradição. Sobretudo nas técnicas narrativas e suas percussões estéticas.

Na condição de escriba e leitor sem pretensões teóricas ou críticas, vejo que Mia Couto se insere perfeitamente nessa categoria de escritores inventivos. Ou melhor: crítico-inventivos. Quando observamos a principal característica de cada autor mencionado acima, podemos destacar em Guimarães Rosa o lingüista apurado. Ele consegue fazer uma recriação da língua, respeitando as tradições mais remotas do idioma e consentâneo ao microcosmo romanesco, para traduzir um homem que se faz, ou refaz, na rudeza do sertão do cerrado brasileiro, a partir de relações conflagradas e hormonais sem o abafamento das pressões curriculares e ainda preservando a pureza oral da língua como soa ao sertanejo de sua obra.

Em José J. Veiga o que salta aos olhos é uma linguagem de aparência simples, mas em verdade sofisticada, onde relata normalmente os acontecimentos e idéias, por vezes absurdas, da visão de mundo das crianças já na pré-adolescência. Em José Saramago vemos a brilhante recriação da linguagem barroca, mas talhada para os dias de hoje. Em seu texto também desaparecem os marcos divisórios de ensaio e romance.

António Lobo Antunes, como atesta seus próprios editores, “articula o presente e o passado em estilo marcado, por um lado, pelo pessimismo, o desencanto, a desilusão e, por outro, pela truculência satírica, o humor ácido e um lirismo eivado de mágoa”. Ele faz um amálgama caudaloso dessas coisas díspares como ninguém.

Franz Kafka trouxe abordagens inéditas, evidenciando o surreal da realidade em obras como O Processo e A Metamorfose, munindo o homem moderno do instrumental para perceber o absurdo do contexto sócio-cultural de nosso tempo, assim como Dante permitiu oa homem medieval formar uma visão de si mesmo e de seu mundo e tal forma a projetá-lo até os dias de hoje. Para Gabriel García Márquez, Kafka deu a visão de que “era possível escrever de uma forma diferente”.

Juan Rulfo, assim como José J. Veiga, seu segredo está na maneira insólita e simples de narrar a ponto de roubar do leitor a noção de vida e morte no desenvolver da trama, sobretudo em seu único romance: Pedro Páramo. E Gabriel García Márquez, que bebeu em Kafka e em Rulfo, trouxe ao texto a magia do ambiente latino-americano e uma musicalidade frasal capaz de encantar até os ouvidos mais desatentos.

Mia Couto tem espaço assegurado nessa galeria de escritores crítico-inventivos da literatura contemporânea. Antes que se prossiga, a literatura se perpetua por obra e graça de escritores inventivos. Pois quando se pensa que a atividade entrou num viés de declínio, por um beco sem saída, vem o escritor de feitos originais trazendo a velha arte literária com roupagens novas. Sem ser outro produto, a mesma literatura, mas com novas feições e o frescor necessário à sobrevida.

Tomei conhecimento da obra de Mia Couto em 1994, pela coletânea de contos Cada Homem É uma Raça, da Editora Caminho, de Lisboa. Fiquei encantado com tanta inventividade literária, com tanto conhecimento da realidade de seu povo, da forma como arquitetava suas alegorias. Na época comentei com o professor de Literatura da PUC-Goiás, Lacordaire Vieira, sobre esse novo autor. Larcordaire já conhecia sua obra e me garantiu: “Ouviremos falar muito desse autor nos próximos anos. É um escritor de qualidades insuspeitas”. É como disse dele José Saramago (digo de cabeça): “Esse é um autor que está a dizer coisas novas”. Depois do livro de contos, conheci os romances Terra Sonânbula, O Outro Pé da Sereia, Um Rio Chamado Tempo, Uma casa Chamada Terra… E minha primeira boa impressão se manteve.

Mas por que Mia Couto é essa Brastemp toda, como se diz aqui no Brasil? É que ele se parece com todos os autores que citei anteriormente. Não que seus textos se pareçam com os deles, pois como disse antes, cada autor grandioso é grandioso a seu modo. Mia Couto se parece com eles no tocante ao grau de criatividade, à inventividade, na originalidade de seu modo de dizer, na singularidade de seu estilo, no apanhado das tradições culturais de seu povo, no rearranjo da língua valendo-se de cacos léxicos que vão caindo pelos caminhos. Trata-se de um autor onde o passado e o presente se fundem, onde sonho e realidade se misturam, onde ficção e história são irmãs siamesas, o trivial e o extraordinário convivem calmamente, além de suprimir de sua fatura as antigas divisórias dos gêneros literários entre prosa e poesia.

Seu primeiro Livro de contos, Vozes Anoitecidas (de 1986), publicado pela Cia das Letras em 2013, é uma oportunidade imperdível para o leitor brasileiro conhecer os recursos estilísticos desse autor laureado. Neste compêndio já está contemplado, de forma bastante explícita, quase todo o cardápio criativo do autor moçambicano. É uma deliciosa oportunidade de sentir o sabor, ainda no nascedouro, na gênese mesmo, de toda a sua manha, de sua prosódia frasal, de sua sintaxe, de suas figurações, de seu trejeito e de todas as estratégias originais que iriam por fim colocar o autor no rol dos mais surpreendentes e inventivos da língua portuguesa de hoje em dia.

Edival Lourenço, presidente da UBE – GO, ocupante da cadeira 22 da Academia Goiana de letras, autor do romance Naqueles morros, depois da chuva, prêmio Jabuti de 2012.

 

TEXTO DEEdival Lourenço
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