O professor Leandro Karnal em entrevista ao Poucas, falou sobre as negações de grupos de pessoas que são contra vacinar crianças.
Para o professor, é grave colocar a vida de crianças em risco, pois negar a vacina é muito perigoso, especialmente porque os argumentos não são pesquisas ou estudos que provam que as vacinas são desnecessárias, mas essas pessoas argumentam suas defesas no pensamento empírico de que seus avós diziam que na época deles não se vacinava e eram tempos melhores. Essas pessoas certamente ignoram o fato de que a estimativa de vida era de 40 anos.
Karnal ressalta ainda que quem não vacina os filhos deveria perder o direito de tê-los. E deveria ser esterilizado e viver feliz em sua Tomorrowland ou no seu país de Oz. Enfatiza que isso é impor a morte à uma criança por uma opinião sem nenhum fundamento científico e que tem gente morrendo por causa disso.
Ao comentar a recusa de alguns pais em vacinar seus filhos, Karnal classificou a decisão como perigosa e afirmou, em tom deliberadamente provocativo, que pessoas que não vacinassem as crianças deveriam perder o direito de tê-las e ser esterilizadas. A entrevista também comparou o negacionismo vacinal a outras formas de rejeição de conhecimentos científicos.
O debate que não pode ser reduzido a uma provocação
A indignação diante de uma criança exposta a uma doença evitável é compreensível. Entretanto, a frase sobre esterilização e perda do direito de ter filhos não deve ser tratada como proposta legítima de política pública. Ela pertence ao campo da retórica polêmica e, se tomada literalmente, colide com a dignidade humana, a liberdade reprodutiva, a proteção contra discriminação e a rejeição histórica de práticas eugênicas. O problema real: a exposição de crianças e comunidades a riscos evitáveis, precisa ser enfrentado com políticas eficazes, proporcionais e compatíveis com o Estado de Direito.
A questão central, portanto, não é saber se pais críticos às vacinas merecem ser privados de sua capacidade reprodutiva. Não merecem. A questão é saber como o Estado, os profissionais de saúde, as escolas, as plataformas digitais e as famílias devem agir quando uma escolha parental ameaça a saúde de uma criança ou de terceiros.
O que os dados atuais mostram
A vacinação continua sendo uma das intervenções de saúde pública mais efetivas já desenvolvidas. As estimativas conjuntas da Organização Mundial da Saúde e do Fundo das Nações Unidas para a Infância indicam que, em 2025, cerca de 116 milhões de bebês — 90% do total mundial — receberam pelo menos uma dose de vacina contra difteria, tétano e coqueluche, enquanto aproximadamente 110 milhões, ou 85%, completaram as três doses recomendadas.
O avanço, contudo, é insuficiente e muito desigual. Em 2025, cerca de 13,5 milhões de crianças não receberam sequer a primeira dose de uma vacina contendo DTP, sendo classificadas como crianças zero-dose. Outras 7,3 milhões iniciaram o esquema, mas não chegaram à primeira dose da vacina contra o sarampo. No mesmo ano, a primeira dose contra o sarampo alcançou 84% das crianças e a segunda, 77%. Como a doença é extremamente contagiosa, a cobertura precisa aproximar-se de 95% para reduzir substancialmente o risco de surtos. Ainda segundo OMS e UNICEF, 57 países registraram surtos importantes ou disruptivos de sarampo em 2025.
| Indicador global mais recente | Estimativa para 2025 | Por que importa |
| Bebês que receberam ao menos uma dose de DTP | 90% — cerca de 116 milhões | Mede o primeiro contato com o calendário básico |
| Bebês que completaram três doses de DTP | 85% — cerca de 110 milhões | Indica conclusão do esquema inicial |
| Crianças zero-dose | 13,5 milhões | Revela falta de acesso, exclusão ou falhas de busca ativa |
| Crianças que começaram DTP, mas não chegaram à primeira dose contra sarampo | 7,3 milhões | Mostra abandono do calendário |
| Primeira dose contra sarampo | 84% | Abaixo do patamar necessário para impedir surtos |
| Segunda dose contra sarampo | 77% | A proteção coletiva depende da conclusão do esquema |
| Países com surtos importantes de sarampo | 57 | Evidência de que as lacunas têm consequências concretas |
Esses números não autorizam uma interpretação simplista. Nem toda criança não vacinada é filha de um militante antivacina. Muitas vivem em áreas de guerra, regiões rurais remotas ou territórios sem serviços de saúde regulares. Outras enfrentam pobreza, deslocamento, falta de transporte, horários incompatíveis, perda de documentos, dificuldade de registro ou interrupções nos serviços. Há ainda a hesitação vacinal, que pode envolver medo de efeitos adversos, desconfiança das instituições, baixa percepção do risco das doenças, experiências ruins no atendimento e exposição a informações falsas.
A distinção é importante porque recusa ideológica, hesitação, desinformação e falta de acesso não são sinônimos. O diagnóstico correto determina a resposta correta: busca ativa e vacinação extramuros para quem não consegue chegar ao posto; comunicação qualificada para quem tem dúvidas; investigação de eventos adversos para preservar a confiança; e medidas administrativas proporcionais quando há recusa injustificada que expõe uma criança ou a coletividade a perigo.
O caso brasileiro: recuperação, mas não licença para relaxar
O Brasil construiu uma das políticas de imunização mais abrangentes do mundo por meio do Programa Nacional de Imunizações, criado em 1973. Coordenado pelo Ministério da Saúde e executado em cooperação com estados e municípios, o PNI oferece gratuitamente vacinas e outros imunobiológicos para diferentes fases da vida. A página institucional do programa informa a oferta de 49 imunobiológicos, incluindo 31 vacinas, 13 soros heterólogos e cinco imunoglobulinas ou anticorpos monoclonais.
A história brasileira demonstra tanto o poder da vacinação quanto o perigo da perda de cobertura. O país recebeu, em 2016, a certificação de eliminação da circulação do sarampo. A partir de 2018, porém, a circulação do vírus foi reintroduzida em um contexto marcado por fluxo migratório e redução das coberturas vacinais. Em 2019, o Brasil perdeu a certificação depois de manter transmissão por mais de doze meses. Entre 2018 e 2022, foram registrados mais de 39 mil casos; em 2022, ainda houve 41 casos confirmados.
A situação melhorou, mas não se tornou irrelevante. Não houve casos confirmados em 2023; em 2024 foram registrados cinco; e, em 2025, 38 casos. O Ministério da Saúde descreve um surto de 25 casos no Tocantins, dos quais 22 ocorreram em uma comunidade tradicional com baixa cobertura e sem registro de vacinação contra o sarampo. Em novembro de 2024, o Brasil recuperou a certificação de eliminação da circulação endêmica, mas a manutenção desse status depende de vigilância contínua, vacinação elevada e resposta rápida a casos importados.
Há também sinais importantes de recuperação da vacinação infantil. Segundo os dados WUENIC divulgados pelo Ministério da Saúde, o número estimado de crianças brasileiras zero-dose caiu de aproximadamente 360 mil em 2023 para 255 mil em 2024 e cerca de 50 mil em 2025.
É uma redução expressiva, associada à retomada de campanhas, à busca ativa, à vacinação em escolas, ao fortalecimento das salas de vacina e à melhoria dos sistemas de informação. Como as estimativas internacionais são revisadas anualmente, seus valores devem ser interpretados como estimativas comparáveis, não como uma contagem imutável de cada criança.
O retrato brasileiro, portanto, é duplo: houve recuperação significativa, mas bolsões de baixa cobertura continuam capazes de permitir a introdução e a transmissão de doenças. Conquistar novamente uma certificação não significa que o vírus desapareceu do mundo nem que a vacinação deixou de ser necessária.
“Antigamente não se vacinava”: memória familiar não é evidência histórica
O artigo original menciona a ideia de que, segundo algumas pessoas, os avós não se vacinavam e viveram em uma época melhor. Esse argumento confunde sobrevivência individual com condições populacionais. Uma pessoa que relata ter chegado à velhice sem determinada vacina não prova que a doença era inofensiva, que a vacina é dispensável ou que o passado era mais saudável.
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ajudam a dimensionar a transformação. Em 1940, a expectativa de vida ao nascer no Brasil era de 45,5 anos. Em 2024, alcançou 76,6 anos. No mesmo período, a mortalidade infantil caiu de 146,6 para 12,3 óbitos por mil nascidos vivos.
A melhora não foi obra de uma única medida: envolveu vacinação, saneamento, renda, escolaridade, pré-natal, aleitamento, nutrição, agentes comunitários e ampliação do acesso aos serviços de saúde.
| Indicador brasileiro | 1940 | 2024 | Mudança |
| Expectativa de vida ao nascer | 45,5 anos | 76,6 anos | +31,1 anos |
| Mortalidade infantil | 146,6 por mil | 12,3 por mil | queda de 91,6% |
| Expectativa de vida masculina | 42,9 anos | 73,3 anos | +30,4 anos |
| Expectativa de vida feminina | 48,3 anos | 79,9 anos | +31,6 anos |
A frase “a expectativa de vida era de 40 anos” também precisa ser corrigida. A expectativa de vida ao nascer é uma média estatística, fortemente influenciada pela mortalidade de bebês e crianças; não significa que a maioria dos adultos morria ao completar quarenta anos. Em 1940, por exemplo, uma pessoa que chegasse aos 60 anos ainda tinha, em média, mais 13,2 anos de vida pela frente.
A estatística correta torna o argumento mais forte, não mais fraco: ela evidencia que a longevidade é resultado de um conjunto histórico de políticas, tecnologias e condições sociais, entre elas a vacinação.
O que a ciência permite afirmar sobre segurança
Nenhuma intervenção médica é absolutamente isenta de risco. Vacinas podem produzir reações esperadas, geralmente leves e temporárias, e eventos adversos raros precisam ser monitorados. A existência de um sistema de vigilância não é prova de que vacinas sejam perigosas; é uma característica indispensável de uma política de saúde responsável.
Também é necessário recordar a origem de uma das mais persistentes alegações falsas sobre vacinação. Em 1998, um artigo publicado na revista The Lancet sugeriu uma associação entre a vacina tríplice viral e o autismo. O estudo envolvia apenas 12 crianças, foi considerado irregular após investigação e acabou formalmente retratado pela revista em 2010. A reportagem científica que documentou o caso registrou problemas de seleção dos participantes, conflitos relacionados a litígios e violações éticas. Desde então, estudos amplos e revisões sistemáticas não confirmaram uma relação causal entre vacinas e autismo. A hipótese se tornou um exemplo histórico de como uma pesquisa frágil, amplificada pela mídia e pelas redes sociais, pode produzir consequências sanitárias duradouras.
A resposta adequada a dúvidas legítimas não é ridicularizar famílias. É explicar quais são os benefícios, os riscos conhecidos, as contraindicações, os mecanismos de monitoramento e as alternativas quando há uma condição clínica específica. A revisão da literatura também mostra que a hesitação vacinal é multidimensional: depende de confiança, percepção de risco e facilidade de acesso, além de fatores históricos, políticos, culturais e institucionais.
O limite entre poder familiar e proteção da criança
Pais e responsáveis possuem deveres de cuidado e participam das decisões de saúde dos filhos. Esse poder, porém, não é ilimitado. A Convenção sobre os Direitos da Criança estabelece que o melhor interesse da criança deve ser uma consideração primária, reconhece o direito inerente à vida e determina que os Estados promovam sobrevivência, desenvolvimento e saúde sem discriminação baseada nas opiniões ou crenças dos pais.
No Brasil, o Supremo Tribunal Federal decidiu, em 2020, que a obrigatoriedade de vacinação pode ser constitucional quando a vacina está registrada pela autoridade sanitária, incluída no Programa Nacional de Imunizações, prevista em lei ou determinada por autoridade competente com base em consenso médico-científico. O STF também esclareceu que vacinação compulsória não significa vacinação forçada: podem existir medidas indiretas, previstas em lei, desde que baseadas em evidências, acompanhadas de informação, proporcionais, razoáveis, respeitosas à dignidade e oferecidas de modo universal e gratuito.
Essa distinção oferece um caminho democrático entre dois extremos. De um lado, o Estado não deve permitir que crianças sejam privadas de cuidados preventivos essenciais por desinformação ou por uma interpretação ilimitada da autoridade parental. De outro, não pode responder com esterilização, punições corporais, perseguição ideológica ou perda automática do direito de formar uma família. Tais medidas seriam desumanas, desproporcionais e historicamente associadas a práticas de controle reprodutivo que o direito contemporâneo rejeita.
A resposta deve começar pela oferta: vacina disponível, gratuita, segura, perto da população, com profissionais preparados e canais de esclarecimento. Depois, deve incluir busca ativa, comunicação transparente, correção de registros, vacinação escolar quando prevista e responsabilização proporcional em situações de recusa injustificada. A intervenção mais grave — inclusive eventual medida de proteção individual — precisa ser analisada caso a caso, por autoridade competente e com revisão judicial, sempre orientada pelo melhor interesse da criança.
Não precisamos escolher entre ciência e direitos
A crítica à desinformação vacinal deve ser firme, mas não precisa repetir a violência daquilo que pretende combater. O objetivo da saúde pública é proteger vidas, reduzir desigualdades e ampliar a confiança nas instituições — não humilhar pessoas nem retirar delas direitos fundamentais.
A fala de Leandro Karnal captou, com linguagem extrema, uma angústia real: uma decisão individual pode produzir consequências para uma criança incapaz de decidir por si mesma e para pessoas vulneráveis que dependem da proteção coletiva. Mas a solução não é impedir que determinados grupos tenham filhos. A solução é reconhecer que crianças são titulares de direitos, que o poder familiar envolve responsabilidade e que a liberdade de crença não inclui o direito de impor riscos evitáveis a terceiros.
A experiência brasileira com o sarampo, a queda histórica da mortalidade infantil e as estatísticas mais recentes da OMS, do UNICEF, do Ministério da Saúde e do IBGE convergem em uma conclusão: vacinas salvam vidas, mas a vacinação só alcança seu potencial quando combina ciência, acesso, confiança, vigilância e responsabilidade pública. Defender esse conjunto é mais eficaz — e mais justo — do que transformar um problema de saúde coletiva em um chamado à esterilização ou à exclusão.
Referências
- UOL. “Poucas: Grupos antivacina devem perder o direito de ter filhos, diz Karnal”. 18 nov. 2019.
- Organização Mundial da Saúde. “Immunization coverage”. Dados globais de 2025, atualizados em 2026.
- UNICEF e OMS. “Global childhood immunization coverage inches forward despite conflict and hesitancy”. 15 jul. 2026.
- Cadeddu, C. et al. “Understanding the determinants of vaccine hesitancy and vaccine confidence among adolescents: a systematic review”. Human Vaccines & Immunotherapeutics, 2021.
- Ministério da Saúde. “Programa Nacional de Imunizações”. Portal Gov.br.
- Ministério da Saúde. “Situação Epidemiológica do Sarampo”. Portal Gov.br.
- Ministério da Saúde. “Relatório da OMS e do UNICEF mostra aumento da vacinação infantil no Brasil”. Jul. 2026.
- IBGE. “Expectativa de vida chega a 76,6 anos em 2024”. 28 nov. 2025.
- Eggertson, L. “Lancet retracts 12-year-old article linking autism to MMR vaccines”. CMAJ, 2010.
- Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. “Convention on the Rights of the Child”. Adotada em 1989; entrada em vigor em 1990.
- Supremo Tribunal Federal. “Plenário decide que vacinação compulsória contra Covid-19 é constitucional”. 17 dez. 2020.