Como se adaptar ao contexto social após uma tragédia? Pior, quão complexo deve ser a readaptação quando você é responsabilizado por situações desastrosas que não só depõem contra a sua integridade, mas também destroem vidas alheias? Culpa, ressentimento, dor, necessidade de perdão, resiliência, sororidade, dentre outros conceitos precisam ser refletidos quando estamos diante de um universo temático tão ardiloso. A análise é de Leonardo Campos, publicado originalmente em  Plano Crítico.

Imperdoável, drama dirigido por Nora Fingscheidt, cineasta que se guia pelo roteiro de Peter Craig, Hilary Seitz e Courtenay Miles, versa sobre os pontos destacados nesta abertura, numa história com suas fragilidades estruturais, mas pontos bem mais positivos que negativos em seu resultado final. Protagonizado por Sandra Bullock, atriz que entrega um desempenho brilhante e engajado, figura do sistema hollywoodiano que seleciona cada vez mais os seus papeis no cinema, o filme desenvolve tensão no ritmo correto, mantém o elenco num patamar equilibrado de qualidade e elabora debates que não completa, mas deixa para o espectador traçar o seu próprio caminho reflexivo.

Ao longo de seus 114 minutos, Imperdoável desenvolve a sua história com um formato que lembra etapas de uma série, talvez pelo fato da trama ser adaptação de um produto oriundo do formato televisivo. A cada passo da caminhada angustiante e opressiva de Ruth Slater (Bullock), acompanhamos os acontecimentos que gravitam em torno de seus anseios, isto é, reencontrar a irmã enviada para adoção após a protagonista ser encarcerada por 20 anos ao ter aniquilado a vida de um policial que assumiu uma ação de despejo. Ou talvez, ser testemunha, mas não a responsável pelo crime, vai saber, não é mesmo?

Dona de uma vida solitária, discriminada e não compreendida, a personagem é incapaz de esboçar o mínimo sorriso de canto de rosto e, graças ao assertivo trabalho de Alex Bovaird nos figurinos, não exala vaidade em nível algum, mantendo em sua aparência uma representação cabal e adequada do prisma sociológico e psicológico que a define: uma mulher que apesar do privilégio de ser branca, possui a chaga do encarceramento, algo tenebroso numa época em que se discute Direitos Humanos e reinserção social.

Taxada como assassina de policial, Ruth consegue, aos poucos, ganhar espaço, mesmo com os numerosos obstáculos. Ela é indicada para uma oferta de trabalho por Vincent Cross (Rob Morgan), seu agente da condicional, ganha a simpatia do advogado John Ingram (Vincent D’Onofrio), figura que a ajuda na tentativa de conciliação com a família que adotou a sua irmã, além do apoio de Blake (John Bernthal), colega de trabalho que reconhece as suas dificuldades, pois no passado, já atravessou uma jornada de prisão por um crime e hoje se mantém reerguido socialmente.

Os problemas ficam mais intensos após Ruth perceber que outras pessoas, impactadas pelo passado no qual ela tenta escapar, querem retaliação pela dor e sofrimento diante de suas perdas, pessoas confusas em suas ações e suscetíveis aos atos mais inesperados, responsáveis por levar a trama por um caminho de tensão constante.

Assim, Ruth caminhará rumo ao encontro de suas novas possibilidades. Reencontrar a irmã? Talvez. Permitir que as pessoas exerçam o perdão? Nem tanto. A esperança vem em doses homeopáticas, em especial, quando a esposa de seu advogado, Liz (Viola Davis), decide ajudar a ex-presidiária, num breve momento de empatia vinda do “outro”, posição que no geral, quando é sobre Liz, geralmente é taxativa em seu tom “imperdoável”.

Desta maneira, ao se desenvolver como narrativa dramática com doses generosas de tensão, o filme entrega o que promete, com algum comprometimento apenas em sua estrutura, repleta de flashbacks elucidativos (ponto positivo), mas dispostos em meio aos acontecimentos que parecem reviravoltas envolventes, mas pouco orgânicas ou desenvolvidas sem tanto cuidado. Ainda assim, por sua vez, Imperdoável é um filme com uma boa história, excelentes personagens e qualidade técnica primorosa.

Destaque para a direção de fotografia, assinada por Guillermo Novarro, constantemente numa perspectiva frontal ao captar a protagonista, além dos ótimos planos fechados que reforçam a entrega de Sandra Bullock ao seu personagem. Ademais, apesar da trilha sonora de Hans Zimmer e David Fleming ser bonita, em alguns pontos, o tom lacrimeja demasiadamente, mantendo a condução musical menos interessante do que de fato poderia ter sido. Mas, como dito sobre a história e sua estrutura deslizante, não podem ser pontos que deponha contra a qualidade do filme em seus aspectos gerais.

É um bom drama, diferente do que parte da crítica superficial contemporânea tem chamado de novelão, bobagem, dentre outras adjetivações descuidadas e vulgares. E sobre o que foi dito no desfecho do primeiro parágrafo, sim, considero que o cinema possa estabelecer teses com começo, meio e fim bem amarrados, mas acredito que no desenvolvimento deste drama, a proposta era justamente levantar pontos e não encerrar a discussão no filme em si, mas entre os espectadores e a crítica. Desta forma, o consumo de arte se torna bem mais empolgante e, sem dúvida, relevante, não concordam?

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