“Eu mudei drasticamente, a minha voz mudou, eu sou muito mais espaçado. Penso, sinto mais, respiro mais, eu lembro mais. Fico mais tempo em silêncio do que eu ficava antes”, disse o escritor Fabrício Carpinejar em entrevista à CNN,  sobre sua mais recente obra, “Depois é Nunca”, lançada em outubro. Livro em que ele disserta sobre os sentimentos aflitivos, em especial o luto. O autor escolheu o luto como sua inspiração ao observar a dor daqueles que buscavam dar sentido à vida após a perda, um cenário frequente no país devastado pela Covid-19. Extraímos alguns excertos. Confira:

2021: O luto é a palavra e o sentimento do ano

“O luto é a palavra e o sentimento do ano. A despedida foi um marco de todo mundo. Se não foi uma despedida física, real, foi uma despedida de uma versão de si mesmo. Você morreu um pouco”.

“Quem não ficou depressivo, acha que tem direito ao Carnaval, a uma virada de ano, a viagens, porque fez o sacrifício de ter ficado confinado. O confinamento foi uma prevenção, não foi uma renúncia. Você não fez mais do que a sua obrigação”.

“Não nos colocamos na posição de quem perdeu parentes, e essas pessoas entendem a realidade intermediária. Elas sabem que nada será mais como antes, é uma arrogante inteireza”.

Não tem como curar o luto, o luto é incurável

“A grande questão é que não tem como curar o luto, o luto é incurável. Você não esquece que existe uma ausência, pois toda a sua vida passa a ser reorganizada a partir dela. Você tem um baque, o que eu vou fazer agora? Como eu vou conseguir me comunicar a partir dessa cadeira vazia?”.

“Eu não quero me proteger dos sentimentos dos outros. Eu estou vulnerável, se tiver que sofrer junto, eu vou sofrer junto. Não vou me desligar egoisticamente, como se aquilo fosse material literário, não é”.

“Estamos em um país que nega a dor e o sofrimento. Como se a morte tivesse sido um azar, uma fatalidade. Você tem uma vida subtraída do seu lar, e precisa sorrir impunemente, não pode ficar muito tempo com essa tristeza que já será um estorvo. Há uma pressa de apagar os vestígios de todo mundo que morreu, como se fosse um crime”.

“Se reconhecermos que as pessoas que morreram, morreram por uma falta de prevenção coletiva, por uma vacinação tardia, você tem motivos razoáveis para entender a morte. Mas, se boicotarmos tudo o que testemunhamos, vai continuar negando e fugindo dela”.

“A morte é um tabu. Tanto que é um tabu, que ela passou a ter a rivalidade com o emprego. O grande dilema do brasileiro foi: manter o emprego ou morrer – só nós para conseguirmos criar essa encruzilhada”.

Dificuldade de compreender a situação e se organizar para combatê-la

“Pela primeira vez, não existe mais o conceito fechado de saúde individual. A sua saúde é a saúde pública. O jeito que você se cuida vai interferir no outro”.

“’Se eu quero destruir a minha vida, eu vou destruir.’ Você não pode mais ter esse pensamento, todo pensamento autodestrutivo é um pensamento de devastação coletiva”.

“A falta de consenso fez com que tivéssemos uma mortandade muito acima de todos os prognósticos. Não estávamos conectados para combater o vírus, havia quem jurava que tudo era uma invenção ou uma fake news”.

“É impossível o diálogo, no Brasil é levado para o plano pessoal. Você é incapaz de debater um tema, você sempre está debatendo a sua vida, e não tem como não brigar se você coloca a sua experiência como eixo de qualquer elaboração intelectual”.

Extremistas: do confinamento para o Carnaval

A vacinação, que no momento já imunizou 65,4% dos brasileiros com duas doses ou dose única contra o novo coronavírus, trouxe alguma esperança. A reabertura foi ameaçada pelo surgimento de uma nova variante, a Ômicron, que já registra casos no Brasil. A aparição e a sombra de tempos mais difíceis também são uma forma de luto, ao olhar de Carpinejar.

“Nós não acreditamos no meio termo. Somos extremistas, ou seja, do confinamento para o Carnaval. Não vai acontecer isso, teremos que lidar com realidades intermediárias. Nós queremos nos livrar de tudo o que sofremos, sem níveis intermediários”.

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