Nunca tivemos tanta obrigação de sermos felizes e nunca fomos tão infelizes

Clara Dawn

Em entrevista ao programa Conversa com Bial – do dia 13/12/2019 – o professor Leandro Karnal, juntamente com os filósofos Mario Sergio Cortella e  Luiz Felipe Pondé, falaram sobre o lançamento do livro  “Felicidade: Modos de Usar”, e refleti à lume desta fala de Leandro Karnal: “Nunca na história humana tivemos tanta rebeldia contra a infelicidade. Então, o que mudou não é a busca pela felicidade, é que agora não estamos mais aceitando a infelicidade: a morte, a doença e a decadência […] Acho que este é um problema contemporâneo[…]: a felicidade obrigatória, sem a qual você não é contratado: não pode dar entrevista e dizer que você é depressivo, você é melancólico; sem a qual [a felicidade obrigatória] você não é uma pessoa de bem. […] Nossas avós geralmente diziam: você está bem, vó? e elas – ‘indo’, ‘levando’… era sempre um gerúndio. Elas nunca diziam, ‘acordei maravilhosa hoje'”.

Não é válida a rebeldia contra a infelicidade. Os sintomas, a dor, o luto, as frustrações… precisam ser vivenciados, desde à infância, para serem compreendidos e ressignificados. A rebeldia precisa canalizada para a luta a favor da aceitação das diferenças.

Lembrei com importante ênfase de Arthur Fleck, personagem de Joaquin Rafael Phoenix, no filme O Coringa (2019), quando em suas anotações escreveu o seguinte: “A pior parte de se ter uma doença mental é que as pessoas querem que você se comporte como se não a tivesse”. Neste filme é possível observar que a reflexão acerca da ‘felicidade obrigatória’ está em todo o contexto, texto, imagens, sons, silêncios do princípio ao fim. É possível notar o papel que as mídias exercem sobre ‘quem devemos ser’ e de como, principalmente, ela nos desvia daquilo que realmente somos. Como ela, com grande sucesso, desempenha a construção de nossa identidade cultural, de nossa fenomenologia social, de nosso consciente coletivo. A felicidade obrigatória é um produto imprescindível ao capitalismo, pois ela atinge o alvo com precisão cirúrgica: no ego, no nosso mais profundo e narcísico desejo, que o de sermos – a qualquer custo – aceitos.

A coisa mais difícil da evolução humana é tornar-se quem você realmente é. Ser quem você é. Isso reverbera os pensamentos longínquos de Nietzsche e também do oráculo de Delfos: “conhece a ti mesmo”. O que Nietsche e as máximas délficas não previam era que esta seria a missão mais turbulenta dos seres pós-modernos. Uma vez que a pós-modernidade trouxe consigo a globalização de um mundo hedonista, capitalista, elitista, excludente, racista, machista, homofóbico, xenofóbico, intolerante, odioso, hipócrita, covarde e cruel.

É esta terrível ‘obrigação’ pós-moderna de estarmos sempre felizes (de acordo com as normas da sociedade) que nos torna tão infelizes. Nunca tivemos tanta obrigação de sermos felizes e nunca fomos tão infelizes.no Brasil são mais de 11 milhões de pessoas diagnósticas com depressão. Quase 6% da população. Diagnósticas. E aquelas que nem sabem que estão com depressão ou com outros tipos de transtornos mentais graves, que são riscos iminentes de suicídio? Segundo a Organização Mundial de Saúde, a depressão já considerada a doença mais incapacitante do mundo.

Então, como se tornar quem você é, nesse meio? É preciso ousar muita coragem e grande amor próprio para assumir o protagonismo de sua história. Para encarar o máximo de verdade sobre si mesmo e abraçá-la como se fosse a única forma de sobrevivência da sua razão de existir, do seu sentido real na Terra.

Ora, não é você que precisa se encaixar na sociedade. É a sociedade que precisa aceitar você exatamente como você é. E é verdade que este mundo tal qual ele se apresenta é que está errado e não você. Você é uma criatura ‘unimultipla’ e é como um ser lindo e unimultiplo que precisa ser aceito, enxergado, respeitado. E a outra grande verdade é que não conseguiremos a aceitação de quem somos sem luta. A história da humanidade é a história das lutas. Só a luta muda e dá sentido à vida. Avance lutando. Não desista de acreditar em si mesmo, de acreditar que é possível sim, um mundo de equidade, de aceitação e de amor fraterno incondicional. E eu só escrevo essas coisas para que aqueles que pensam como eu, saibam que não estão sozinhos.

Este texto é de autoria da escritora, psicopedagoga e psicanalista Clara Dawn. É proibida a reprodução parcial, ou total, sem sua prévia autorização.(Lei Nº 9.610 de 19 de fevereiro de 1998).

Leia mais: 

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS





Clara Dawn
Clara Dawn é romancista, psicopedagoga, psicanalista, pesquisadora e palestrante com o tema: "A mente na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência". É autora de 7 livros publicados, dentre eles, o romance "O Cortador de Hóstias", obra que tem como tema principal a pedofilia. Clara Dawn inclina sua narrativa à temas de relevância social. O racismo, a discriminação, a pedofilia, os conflitos existenciais e os emocionais estão sempre enlaçados em sua peculiar verve poética. Você encontra textos de Clara Dawn em claradawn.com; portalraizes.com Seus livros não são vendidos em livrarias. Pedidos pelo email: escritoraclaradawn@gmail.com