Mario Sergio Cortella Fotos: Tatiana Ferro

Paraisópolis: “Não dá pra fingir que não está acontecendo”

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O assassinato é a primeira causa de morte de jovens entre 14 e 28 anos. Em Paraisópolis – São Paulo, nove morreram, corroborando com as estatísticas do genocídio dos jovens pobres deste país. A Revista Época publicou que laudos do IML apontam ‘asfixia mecânica’ em mortes de Paraisópolis

Dor e revolta são as únicas palavras para descrever o que aconteceu na madrugada deste domingo na favela de Paraisópolis, em São Paulo. O que grande parte da imprensa vem chamando de “tragédia” tem outro nome:

O professor Mario Sergio Cortella em entrevista ao Jornal da Cultura, ao ser perguntado sobre qual o significado dos bailes Funk para a sociedade e por que as autoridades não acabam com eles, respondeu:

“A grande questão é: acabarem, com qual argumento? Você poderia dizer ‘olha, ele é ilegal’, como disse o governador, ou que traz insegurança, ou como lembrou Villa pode ter situações que permitem o tráfico ou outras coisas. Mas, acima de qualquer coisa, é uma manifestação daquela comunidade e de outras dentro da nossa sociedade, que é a cidade de São Paulo, onde moram, na qual é preciso olhar que, acima de tudo não é uma decisão policial. A decisão sobre o que fazem os jovens e as pessoas naquele lugar para terem o seu lazer, o seu modo de colocar: se o funk, o pancadão, ou outra coisa, não é uma questão policial. Por isso, essa situação não é nem um incidente (essa que nós estamos olhando), nem um acidente, né?

Não é uma coisa que aconteceu fortuita e, tudo bem, isso acontece. Bom isso aconteceu e há responsabilizações nisso.  Uma parcela dos mortos tinha 14 anos de idade, 15, não é que ele não possa estar ali, mas por que ali estava? Qual seria a alternativa para o seu lazer se não estivesse naquele baile? É necessário que o conjunto da sociedade pense isso, e a polícia, claro, vai ter, dentro da sua tarefa constitucional, de garantir que aquilo se realize se for algo legal ou não se realize se não for. Mas o que gente não pode esquecer que essa situação é muito séria, pra todos os lados, não dá pra fingir que não está acontecendo depois que aconteceu, como disse bem, o Villa. Os protocolos de vários lados perderam ali a sua forma de fronteira”. Mario Sergio Cortella

Baile funk, única alternativa de jovens de uma das maiores favelas do país, com 100 mil habitantes, por sua vez, é criminalizado, tratado a tiro e bomba. O discurso dos que apoiam esse tipo de ação da PM, é de que o evento é local de venda e consumo de droga. Mas ali pertinho de Paraisópolis, no bairro nobre de Morumbi, não vemos esse tipo de ação, por que será? Será que jovens de classe média alta não usam drogas?

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