Perdemos 60 mil amores para uma doença curável e prevenível

Clara Dawn

O novo coronavírus (Covid-19) que surgiu em dezembro de 2019, na província de Wuhan, no centro da China,  chegou a mais de 188 países, em cinco continentes e já contaminou mais de 8 milhões de pessoas. No Brasil, as vitimas testadas, já passaram de 1.426.913. Dentre elas 60.194 mil perderam suas vidas. Vidas que não são apenas estatísticas, não são apenas números, são – com certeza – amores de alguém, que poderiam ainda estarem vivos, pois a Covid-19 é uma doença prevenível e curável. Os dados mostram ainda que há 790.040 pessoas recuperadas da doença e 552.407 em acompanhamento, até a última revisão desta matéria em 01/07, ás 13h45min.

Sem testagem, os números com certeza são muito maiores que os registrados. Não falar sobre as realidades, não fará com que elas desexistam. Sonegar, ou adulterar dados, não significa que mortes evitáveis são evitadas. A melhor maneira de evitar que tragédias aconteçam, é falando abertamente sobre elas.

Saber que 790 mil se recuperou não alivia a dor dos que choram pelos 60 mil

Lamentamos que extremistas e negacionistas sejam capazes de tripudiar com a dor alheia. Ainda que milhares de pessoas morram todos os dias por n fatores, ainda que a morte seja o destino final de todos, não se deve apequenar a dor de pessoa alguma. Afinal, a partida de um ente querido, principalmente em situações como a de uma pandemia viral, é assustadora, é cinematográfica, é nunca acordar de um pesadelo, é conviver num vendaval de incertezas, sem um lampejo de esperança. Saber que 790 mil se recuperou da Covid-19 não alivia a dor dos que choram pelos 60 mil. Pelo contrário, deixa-os irradiados de grande tristeza e revolta, pois, se 790 mil, de 1.426.913, se salvou, não seria possível salvar 95%?

A questão maior não é a doença em si: é se o paciente conseguir uma vaga na UTI, quanto tempo ele ficará lá até se recuperar, e se terá EPIs para tratá-lo até o fim.

Inicialmente vista como uma doença respiratória causadora de pneumonia, a covid-19 está se revelando bem mais complexa conforme se espalha pelo globo, diz o epidemiologista Paulo Lotufo, professor titular de Clínica Médica da Universidade de São Paulo (USP).

Nos países mais afetados pela pandemia, hospitais têm recebido cada vez mais pacientes com problemas cardíacos e renais causados pela doença. A explicação, diz Lotufo, pode estar na ação do vírus Sars-CoV-2 em receptores envolvidos no controle do sistema circulatório — o que estaria desencadeando infartos e acidentes vasculares cerebreais (AVCs) entre pacientes sem histórico de doenças cardiovasculares.

Sendo assim, o maior desafio é a consciência de o contagio da doença precisa ser contido, com a obediência das medidas de prevenção.

Se a Covid-19 é uma doença prevenível e curável por que tantos estão morrendo?

Sim, a Covid-19 é uma doença prevenível e curável. Prevenível porque se obedecermos o distanciamento, usarmos máscaras e lavarmos corretamente as mãos, temos grandes chances de não sermos contaminados. E curável porque milhares de pessoas infectadas, sintomáticas ou não, já estão curadas.

É quase inacreditável que um século depois da gripe espanhola, mesmo num mundo globalizado, a ignorância possa prejudicar tantas vidas. Ainda bem, que ignorância não significa inocência. A história pode perdoar os erros cometidos pela falta de conhecimento, mas jamais perdoará a maldade deliberada, o egoísmo, a arrogância, o negacionismo dos fatos, e a supervalorização do capital em detrimento dos atingidos.

Não estamos no mesmo barco. O coronavírus não atinge a todos por igual. A falta de saneamento básico faz com que 35 milhões de brasileiros não tenham água tratada e 100 milhões não disponham de coleta de esgoto. O Brasil está entre os dez mais ricos do mundo e consegue estar no 175º lugar em desigualdade social. E justo quando a epidemia atinge os mais pobres, fábricas e governantes orientam a volta ao trabalho, fazendo do povo pobre, trampolim para garantir lucros, colocando em risco as suas vidas e as de suas famílias.

Todo esse grande mal e muitos outros poderiam ser evitados se:

  • Houvesse campanhas educativas de conscientização, acordadas entre todos os países;
  • Existissem políticas públicas que garantissem uma saúde pública de qualidade e mais hospitais com profissionais fossem tratados com dignidade e honra;
  • Exigissem que os multimilionários pagassem seus impostos; bastassem tirar as mordomias dos políticos, pois só o auxilio paletó daria para alimentar 17 mil famílias por 4 anos;
  • Exigissem que as famílias mais ricas do mundo, ‘devolvessem’ o usurpado dinheiro à explorada classe trabalhadora, gerando empregos com equidade e garantindo o sustento de suas famílias durante a pandemia.

Sobre os dados inseridos

Os dados contidos neste artigo, foram levantados pelo conjunto de veículos de comunicação Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e UOL; consolidados a partir das secretarias estaduais de saúde, e inseridos no mapa da disseminação do coronavírus, que é atualizado duas vezes por dia, pela Universidade John Hopkins (Baltimore, EUA). O mapa traz informações sobre o número de infectados e mortos, separados por países. Você pode acessá-lo ao clicar aqui.

Veja também: A Vacina De Oxford Testada No Brasil: Quão Perto Estamos Da Esperança?

Texto da escritora, psicopedagoga e psicanalista Clara Dawn – Exclusivo para o Portal Raízes. É proibida a reprodução parcial, ou total, sem a nossa prévia autorização.(Lei Nº 9.610 de 19 de fevereiro de 1998).

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Clara Dawn
Clara Dawn é romancista, psicopedagoga, psicanalista, pesquisadora e palestrante com o tema: "A mente na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência". É autora de 7 livros publicados, dentre eles, o romance "O Cortador de Hóstias", obra que tem como tema principal a pedofilia. Clara Dawn inclina sua narrativa à temas de relevância social. O racismo, a discriminação, a pedofilia, os conflitos existenciais e os emocionais estão sempre enlaçados em sua peculiar verve poética. Você encontra textos de Clara Dawn em claradawn.com; portalraizes.com Seus livros não são vendidos em livrarias. Pedidos pelo email: escritoraclaradawn@gmail.com