Quando o narcisismo da mãe prejudica o desenvolvimento integral da filha

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Mães normais e saudáveis são orgulhosas das suas filhas e querem que elas sucedam e brilhem. Mas uma mãe narcisista percebe a filha como uma ameaça. Se a atenção se desvia da mãe, a criança sofre retaliação, humilhações e castigos.

Nos últimos dias vimos nas redes sociais, milhares de internautas levantarem a bandeira: Fran explora a filha e a maltrata para manter a fama na internet. A filha, é a adolescente, Bel, 13 anos, do canal Bel Para Meninas. A princípio, o conteúdo no canal da Bel focava mais em Fran, até que a menina protagonizou o canal ao mostrar coleções de bonecas e realizar enquetes infantis. Agora, em vídeos divulgados na internet, Bel tenta explicar para a mãe que já é adolescente, mas ela não aceita.

Além disso, os internautas resgataram um vídeo no qual Fran supostamente induz a filha a tomar bacalhau com leite. Na gravação, Bel informa que vai vomitar, mas a mãe segue sugerindo que ela beba o líquido. Por fim, a garota arrota e vomita, e Fran joga a bebida no cabelo dela. Sobre este caso especificamente, veja o vídeo abaixo, a análise de especialista em linguagem corporal acerca de como a Bel reage às abordagens de sua mãe. 

A adultização e capitalização das crianças é uma maneira bem eficiente de destruí-las

A adultização e capitalização das crianças,  sempre foi uma fenomenologia social preocupante. Antes eram os desfiles de misses, o cinema, o teatro, a Televisão. Na pós-modernidade é tudo isso e mais a super-exposição nas redes sociais.

Inspirados no caso Bel, falaremos neste artigo, de modo generalizado, sobre como o narcisismo da mãe pode ser prejudicial no desenvolvimento integral de sua filha:

Mães e filhas: vinculo que cura, vínculo que fere

Uma mãe narcisista pode ter ciúmes de sua filha por muitas razões: a sua aparência, a sua juventude, bens materiais, realizações, sucesso nas redes sociais, popularidade, educação e até o seu relacionamento com o pai. Este ciúme é particularmente difícil para a filha porque carrega uma dupla-mensagem: “ficar bem para que a mãe fique orgulhosa, mas não demasiadamente bem para não ofuscar a imagem dessa mãe”.

Enquanto muitas pessoas acreditam que ser invejada é uma experiência desejável, no entanto, ser invejada particularmente pela própria mãe, é horrível. A autoestima da filha é esmaecida com desdém e críticas constantes, oriundas de sua mãe. A sua bondade é questionada ou rotulada, suas fraquezas são caçoadas e o seus acertos são postos numa balança que jamais se pende ao positivo. Como não faz sentido para ninguém que uma mãe tenha estes maus sentimentos para com a sua filha, assume-se então que a filha sofre de algum tipo anomalia emocional fluída da sua visão de si mesma e/ou do mundo.

A triste sina de filhas invejadas por suas mães

Quando crescem, as filhas de mães narcisistas normalmente acham difícil conceber a inveja que suas próprias mães têm de si e com isso se anulam. As que diagnosticam a inveja materna podem vir a odiar a mãe e adotarem uma postura bastante conflituosa e retaliativa. Mas enquanto criança, as meninas invejadas e oprimidas pela mãe, não têm consciência de sua própria opressão.

Em vez disso, elas acreditam, mais uma vez, que as críticas negativas foram feitas por sua mãe, com razão de ser, uma vez, que elas não foram boas o bastante. Se as filhas interiorizarem o sentimento de “não serem boas o suficiente”, elas não vêem a possibilidade de alguém ter inveja delas, porque não se consideram pessoas dignas de serem copiadas.  Uma criança assim, certamente será um adulto inseguro, infeliz e incapaz de construir relações duradouras e/ou projetos ambiciosos e valentes. E é certo que poderá desencadear transtornos mentais graves do tipo: ansiedade, bipolaridade ou depressão.

O que está acontecendo com a mãe?

A projeção de si por meio da filha permite que a mãe insegura se sinta melhor temporariamente sobre si mesma. Quando ela tem inveja da filha, ela a critica, e a desvaloriza. Assim, ao humilhar a filha, a mãe, ainda que inconsciente, vê a própria autoestima levantada. A inveja materna pode ser verificada em interações da mãe com outras pessoas também. Uma mãe narcisista é antes de tudo uma pessoa narcisista. Mas quando o seu narcisismo é especialmente dirigido para a filha, a criança cria um sentimento de desamparo e insegurança dolorosa por ter sido criada por uma mãe tóxica.

A competição da mãe com a filha cria obstáculos no seu desenvolvimento 

Enquanto uma criança está crescendo, a sua mãe é o seu principal exemplo de como ser uma menina, mulher, amiga, companheira e pessoa no mundo. Se esta mãe a coloca sempre para baixo com ciúmes das suas realizações, a criança não só se torna confusa, mas apreende a ideologia de que é melhor desistir do que tentar e errar. O trabalho de uma mãe é preencher cada estágio do desenvolvimento de seus filhos com carinho, amor, apoio e incentivo… A maioria das crianças quer agradar aos seus pais, mas desta forma a mensagem é mista: é mais fácil, e talvez ainda mais seguro, fazer nada do que expor-se à crítica. A mensagem da mãe é: “se você não é boa o bastante, desiste logo”.

O papel do pai na relação tóxica: mãe e filha

As crianças precisam de ter relacionamentos saudáveis com ambos os pais, ou os responsáveis por essas figuras simbólicas. A função paterna então- ou da figura que representa o pai – ao mesmo tempo que potencializa a função materna, tem o objetivo de interrompê-la quando a relação mãe-e-filha se torna tóxica e prejudica o desenvolvimento integral da criança.

Muitas vezes os companheiros em relações com narcisistas escolhem atender à mãe como prioridade, a fim de manter “a paz” no relacionamento. Como o pai não pode se aproximar muito da filha por causa do ciúme da mãe, isso deixa a filha sem conexão emocional também com pai. Ocorre, muitas vezes, quando o pai atende a filha em detrimento da companheira, esta agrede a filha verbal e fisicamente. E isso se torna uma constante. Até que o pai reaja com firmeza propondo um tratamento á mãe, ou até que menina cresça e se imponha de modo explosivo e muito doloroso.

Quando não se resolve isso na infância e/ou adolescência, a filha, cedo, considerará que sair dessa casa tóxica será a sua libertação, mas a cura de suas feridas emocionais dependerá muito de sua força de vontade e amor próprio. Força de vontade e amor próprio que foram neutralizados desde a infância.

Filhas de mães narcísicas não se sentem amadas

Em todos os casos de inveja da mãe, em relação a filha, ela não se sente amada, e pior ainda, se sente desamparada de modo físico, mental, emocional, social e espiritual. Tudo o que o inferno representa está contido na palavra ‘desamparo’.

A inveja materna é uma grande covardia do desamparo da criança, que fora lançada num mundo onde ela  jamais se sentirá integrada. A inveja materna é uma espécie de raiva que destrói uma pessoa em desenvolvimento. Não sentir-se amada é assustador para uma criança em qualquer idade.

O desafio para as filhas de mães narcisistas é aprender a reconhecer e a lidar com a inveja materna

Quando conseguimos compreender os efeitos que a criação teve sobre nós, começamos a compreender a nós mesmas, a nos curarmos, e a sermos capazes de assimilar o que pensamos de nosso corpo ou a explorar o que consideramos possível conseguir na vida. O importante a entender é que a inveja corrosiva,  sentida por mães narcisistas não é normal. A distinção é gerada: é destrutiva! O desafio para as filhas de mães narcisistas é aprender a reconhecer e a lidar com a inveja materna.

Reconhecer a educação tóxica e sublima-la no processo de autocura 

Mulheres que passaram por mães narcísicas durante sua fase de desenvolvimento,  precisam encontrar – sugerimos – na escuta terapêutica, o processo de recuperação que lhe permitirá a sua individualização, de modo que esta não seja definido por ninguém, mas só por si mesma. Ao trabalhar a sua autocompaixão, autorregulação, autoconhecimento, autoanálise e seu amor próprio, criará sua própria vida, emocionante, significativa e gratificante.

Os saberes psicopedagógicos inseridos neste textos, são da psicoterapeuta Karyl McBride Ph.D – Tradução e livre adaptação – Portal Raízes

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