A educação brasileira atravessa uma crise que vai além dos índices escolares, dos rankings e das metas curriculares. Existe um esgotamento mais profundo, silencioso e humano. Crianças e adolescentes têm aprendido a competir antes mesmo de aprender a pertencer. Em muitos contextos, desempenho passou a valer mais do que presença; produtividade, mais do que subjetividade.
O resultado aparece no crescimento da ansiedade, da solidão, da violência simbólica, da sensação de vazio e do sofrimento psíquico que atravessa as novas gerações.
Talvez a crise da educação contemporânea não seja apenas pedagógica. Talvez ela seja afetiva, cultural e existencial.
É nesse ponto que o pensamento da antropóloga, educadora e curadora indígena Sandra Benites (capa) emerge como uma das vozes mais importantes do Brasil contemporâneo.
Nascida na Terra Indígena Porto Lindo, no Mato Grosso do Sul, Benites constrói uma ponte rara entre aldeia e universidade, ancestralidade e academia, oralidade e pensamento crítico.
Seu trabalho não busca transformar os saberes indígenas em exotismo intelectual ou metáfora poética para consumo urbano.
Pelo contrário: sua trajetória afirma que os povos originários possuem epistemologias próprias, sofisticadas e profundamente humanas, historicamente silenciadas pela lógica colonial.
Teko: o modo de ser, existir, sentir e habitar o mundo
Ao trazer para o centro da discussão conceitos como teko, tekoa e Nhe’ẽ, (o ser, o lugar, o espírito e a palavra) Sandra Benites desloca radicalmente a forma como compreendemos educação.
Para os Guarani Nhandewa, educar não significa apenas transmitir conteúdo ou preparar alguém para o mercado de trabalho. Educação é fortalecer o teko: o modo de ser, existir, sentir e habitar o mundo.
O sujeito não nasce vazio à espera de instruções técnicas. Ele já chega carregado de memória, pertencimento, linguagem, afetos, espiritualidade e vínculo comunitário.
Educar, portanto, é cuidar para que essa essência não seja esmagada ao longo da vida. Essa compreensão rompe frontalmente com o modelo tecnicista predominante na modernidade ocidental, onde a escola frequentemente transforma indivíduos em números, resultados e desempenho.
Em muitos ambientes escolares, a criança aprende cedo a responder provas, mas não aprende a reconhecer a própria dor; aprende a competir, mas não a conviver; aprende a produzir, mas não a existir.
Tekoa: território de identidade e pertencimento
Na perspectiva Guarani, o conhecimento não está separado da vida. Ele nasce da relação com o território, da escuta dos mais velhos, da experiência coletiva, do silêncio, da observação da natureza e da responsabilidade espiritual diante do outro.
O tekoa, mais do que espaço geográfico, é território de identidade e pertencimento. Sem território simbólico, emocional e cultural, o sujeito também adoece.
Talvez uma das maiores contribuições de Sandra Benites seja justamente lembrar ao Brasil que a educação não deveria arrancar alguém de suas raízes para torná-lo “adequado” ao sistema, mas ajudá-lo a florescer sem perder sua humanidade.
Essa reflexão torna-se urgente em um tempo marcado pela hiperconexão e, paradoxalmente, pela incapacidade crescente de escutar.
Vivemos cercados de informação, mas empobrecidos de presença. Falamos demais, reagimos demais, consumimos demais, mas ouvimos cada vez menos.
Nhe’ẽ: o espírito e a palavra
Na tradição Guarani, porém, a palavra não é mero instrumento de comunicação. O Nhe’ẽ carrega sopro, espírito, a palavra, o vínculo e a responsabilidade. A palavra possui peso ético e dimensão afetiva.
Talvez por isso tantas crianças e adolescentes contemporâneos estejam adoecendo em silêncio. Porque não basta estar cercado de estímulos digitais se ninguém verdadeiramente escuta sua existência.
Políticas públicas e educação intercultural
Uma educação humanizada começa quando o sujeito sente que pode ser ouvido sem precisar transformar sua dor em desempenho ou sua identidade em máscara social.
O acolhimento não é um detalhe pedagógico: é fundamento psíquico da formação humana.
Nesse contexto, as políticas públicas educacionais brasileiras precisam ultrapassar a lógica meramente produtivista. A Base Nacional Comum Curricular e os sistemas de ensino ainda operam majoritariamente dentro de parâmetros quantitativos, onde eficiência e rendimento frequentemente sufocam a complexidade humana.
Integrar perspectivas indígenas não significa apenas “incluir conteúdos” sobre povos originários em datas comemorativas, mas reconhecer que existem outras formas legítimas de compreender inteligência, aprendizado, tempo, comunidade e cuidado.
A educação intercultural, quando levada a sério, não beneficia apenas estudantes indígenas. Ela amplia a consciência coletiva sobre o que significa formar seres humanos em uma sociedade marcada pelo desenraizamento emocional e cultural.
Porque o adoecimento contemporâneo também nasce da ruptura dos vínculos. Famílias exaustas convivem sem presença. Comunidades tornam-se cada vez mais fragmentadas.
Crianças crescem cercadas por telas, mas privadas de escuta profunda, convivência comunitária e experiências reais de pertencimento. A aceleração constante da vida moderna cria sujeitos funcionalmente produtivos, mas emocionalmente órfãos.
Em suma:
Nesse cenário, recuperar a dimensão comunitária da educação talvez seja uma das tarefas mais importantes do nosso tempo. Isso não significa romantizar povos originários nem transformá-los em solução idealizada para os problemas do mundo contemporâneo.
Significa reconhecer, com humildade, que sociedades historicamente marginalizadas preservaram saberes fundamentais sobre convivência, escuta, território, espiritualidade e coletividade. Saberes que a modernidade frequentemente desprezou em nome do progresso.
As redes sociais, inclusive, refletem essa ambiguidade. Podem aprofundar superficialidades e fragmentar a atenção, mas também podem tornar-se ferramentas de resistência cultural, memória coletiva e circulação de vozes historicamente invisibilizadas. Quando usadas de maneira consciente, as plataformas digitais podem aproximar saberes tradicionais e contemporâneos, registrar histórias locais e criar redes de apoio onde o aprendizado nasce da troca e não apenas da competição.
Talvez o maior convite presente no pensamento de Sandra Benites seja um convite à pausa. Pausa para ouvir. Pausa para lembrar. Pausa para reconhecer que educar não é fabricar desempenho, mas sustentar humanidade.
Porque uma sociedade que ensina alguém a produzir, mas não a existir, inevitavelmente adoece. E talvez educar nunca tenha sido apenas preparar pessoas para o futuro. Talvez educar seja impedir que elas percam a si mesmas no caminho.
Conheça um pouco mais sobre o povo Guarani:

