“Não se brinca com a cabeça. Eu trabalho muito com a minha psicóloga por causa disso. Hoje eu sou uma atleta diferente, justamente pela cabeça que eu tenho”, disse a ginasta brasileira Rebeca Andrade após conquistar a medalha de prata na final individual geral, na manhã desta quinta-feira 29/07. É a primeira medalha da equipe feminina de ginástica artística na história dos Jogos Olímpicos. Com uma performance embalada ao som de Baile de favela, a atleta teve um desempenho sólido na disputa e encerrou a prova com 57.298 pontos. Ficou atrás apenas da norte-americana Sunisa Lee, que levou o ouro ao somar 57.433 pontos, a russa Angelina Melnikova marcou 57.199 pontos ao todo e levou o bronze.

Rebeca Andrade, 22 anos, foi impecável nos quatro aparelhos da final: fez 15.300 no salto, 14.666 nas assimétricas, 13.666 na trave e 13.666 no solo. Ela ainda tem chances de medalha na decisão do salto, que será disputada no próximo domingo, e no solo, em 2 de agosto. Este foi o primeiro triunfo da ginástica do Brasil nesta Olimpíada.

“Essa medalha não é só minha, é de todo mundo. Todos sabem da minha trajetória, o que eu passei. Se eu não tivesse cada pessoa dessa na minha vida, isso aqui não teria acontecido. Tenho certeza disso. Sou muito grata a todo mundo mesmo. Acho que mesmo se eu não tivesse ganhado a medalha, eu teria feito história, justamente pelo meu processo para chegar até aqui. Não desistam, acreditem no sonho de vocês e sigam firmes”, comemorou a atleta em entrevista à TV Globo após a conquista histórica.

Rebeca, que disputa sua segunda Olimpíada, cativou a torcida brasileira —e surpreendeu os juízes— ao se apresentar nas qualificatórias ao som de uma versão orquestrada de Baile de favela, do funkeiro paulistano MC João. A música de 2015 é um ícone nos bailes das periferias de São Paulo, e se tornou símbolo de uma cultura e de uma juventude frequentemente menosprezadas e marginalizadas pelas elites do país. “Trazer a cultura funk para o outro lado do mundo foi incrível”, afirmou a ginasta, filha de uma empregada doméstica, ao deixar o tablado.

A saúde mental em destaque para uma vida qualificada

Rebeca Andrade conquista prata nas Olimpíadas de Tóquio (foto: Reprodução/Twitter/Ricardo Bufolin

É muito esperançoso assistir esse início (ainda tímido) do despreconceito da saúde mental, por intermédio das falas dos atletas olímpicos. Sim, porque a visita a um especialista em saúde mental deve ser algo tão comum quanto ir ao dentista. Por isso, ficamos felizes com as declarações de atletas acerca da saúde mental.

Além de Rebeca Andrade, outra ginasta também trouxe á lume a importância da saúde mental. Simone Biles, dos Estados Unidos, surpreendeu o mundo ao abandonar a final por equipes da ginástica artística – e depois a final individual geral – nas Olimpíadas de 2020. Aos 24 anos e um dos maiores nomes do esporte, Biles carregava as expectativas de todas as audiências do planeta em seus ombros. “Eu apenas não queria continuar”, disse a atleta, que deixou a disputa após um desempenho abaixo do esperado na prova do salto.

A decisão da ginasta em Tóquio traz à tona a discussão acerca dos impactos da pressão psicológica para a saúde mental dos esportistas e profissionais de altíssima performance. “Eu tenho que focar na minha saúde mental”, disse Biles em entrevista coletiva. “Temos que proteger nossas mentes e corpos, e não apenas ir lá [competir] e fazer o que o mundo quer que façamos”.

Uma das estrelas do skate e então favorito ao ouro olímpico, o americano Nyjah Huston foi derrotado no domingo (25) no evento masculino da modalidade street, na estreia da categoria nas Olimpíadas. Nyjah saiu pedindo desculpas aos seus apoiadores e exaltando a importância dos atletas cuidarem de sua saúde mental antes, durante e após as competições.

Segundo especialistas, a pressão sofrida por atletas de ponta pode levar a quadros de ansiedade e depressão. Para a psicóloga Marilene Kehdi, especialista em atendimento clínico, o treinamento dos atletas deve priorizar aspectos voltados para o cuidado com a saúde mental.

“A ansiedade acompanha o atleta a vida toda. São entradas e saídas constantes de competições, além de uma vida com restrições e cobranças internas e externas. Um bom desempenho numa competição depende de um atleta que esteja bem técnica e emocionalmente, com a saúde mental bem preservada”, diz a especialista.

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